Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi furtivo d'essas pessoas agradaria mais ao seu espirito do que os discursos officiaes e as lisonjas cortezãs que por toda a parte o perseguiam.

De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel de todos os principes da sua familia: fixava facilmente as phisionomias e as datas, de modo que não perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez houvesse falado.

Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da côrte, el-rei D. Luiz me avistou na posição pouco evidente em que sempre procurei collocar-me, e o seu olhar perspicaz, quando não era o seu sorriso amavel, correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso, mas quasi subtil.

Posto isto, que me nasce da abundancia do coração, eu direi em singelas palavras como foi que desde 1873 tive a honra de me aproximar de el-rei D. Luiz I.

Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situação burocratica que ainda assim vi com alegria cair do{11} céu, tinha eu publicado recentemente um livro, A Porta do Paraiso, chronica do reinado de el-rei D. Pedro V.

Os regeneradores estavam no poder, e o governador civil do Porto, Bento de Freitas Soares, que se me affeiçoára, dera-me uma carta de apresentação para o ministro do reino, Antonio Rodrigues Sampaio.

Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me immediatamente com a bonomia familiar que elle tinha para com toda a gente.

Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens politicos e de pretendentes, demorou-se bons tres quartos de hora conversando comigo. Falou-me da sua origem obscura, da sua lucta pela existencia, da perseguição aos Cabraes, do Espectro, e na sua palavra, ás vezes demorada, havia um doce tom de familiaridade verdadeiramente captivante.

Terminou perguntando-me o que eu queria.

Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado a el-rei para lhe offerecer um exemplar do livro que acabava de dar a lume. Acrescentei que era eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario do meu livro, e que de modo algum ousaria offerecel-o a el-rei, se não se tratasse casualmente de uma novella baseada em factos do reinado do senhor D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se não podia prender, como obra de arte, a attenção de el-rei D. Luiz, teria comtudo para sua magestade o interesse que resultaria naturalmente de todo e qualquer escripto que dissesse respeito a uma pessoa da familia real.