Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito; que no dia seguinte, uma quinta feira, havia despacho no Paço; que estivesse eu, á uma hora da tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na sua carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho.
No dia seguinte, á hora indicada, partimos do Terreiro do Paço para a Ajuda, na mesma carruagem, e dez{12} minutos depois de chegarmos ao Paço, el-rei, que logo tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para uma das salas interiores.
Quando ali entrei, com a timidez de um homem que arrisca os primeiros passos nos tapetes da côrte, el-rei, encostado ao vão de uma janella, e fumando charuto, com as mãos mettidas nos bolsos de um veston, conversava com o ministro do reino.
Sampaio apresentou-me em termos excessivamente amaveis, e el-rei disse-me palavras tão obsequiosas, que augmentaram ainda mais a minha confusão.
Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei falou-me logo no livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me que já o tinha lido. Referiu-se a muitos factos a que eu alludia, principalmente as viagens que elle proprio fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando um relampago da sua felicissima memoria, recordou que eu tinha biographado Julio Diniz. Falou muito d'este mallogrado homem de lettras, perguntou-me se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com grande segurança de critica, os seus romances, acceitando a minha opinião de que Julio Diniz seguia principalmente no romance a escola ingleza.
E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a luva da mão direita—o que Sampaio me advertira—el-rei, certamente por ter reconhecido que eu fumava, abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto.
Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei, sorrindo, observou-me:
—Não póde negar que fuma; nem eu. E fumo muito.
Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento.
Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord Stairs, que acceitou uma vez ser o primeiro a entrar na carruagem de Luiz XIV, allegando que resistir ao offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel.