Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos{13} falando de escriptores portuenses, fingi-me distraído, não o accendi. Nem me era facil saber como havia de accendel-o. Eu não tinha phosphoros comigo, Sampaio não fumava; só o rei estava fumando.

Mas sua magestade, vendo que eu não accendia o charuto, offereceu-me lume.

Aqui, n'este lance, começou a minha tortura. Eu fumo desde os quinze annos desesperadamente—mas cigarro. O charuto estontea-me. Basta ás vezes o seu fumo para incommodar-me.

O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que eu, acceitando o lume que el-rei me offerecia, accendi o charuto, que de mais a mais era fortissimo.

A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o apagar a breve trecho, propositadamente. Mas el-rei, reparando que o meu charuto se havia apagado, tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava no apogeu da tortura, fôra el-rei avisado de que chegára o presidente do conselho de ministros, Fontes Pereira de Mello, e a audiencia terminou um pouco abruptamente com estas palavras de el-rei:

—Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faça-o sem acanhamento.

Isto fez-me suppôr que el-rei havia attribuido a acanhamento o facto de eu ter deixado apagar o charuto.

Tive que esperar que o despacho terminasse. Á saida, Sampaio apresentou-me a Fontes Pereira de Mello, e aos seus collegas no ministerio. Uma vez entrados na carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que elle ouviu rindo ás gargalhadas, e pedi-lhe licença para fumar um cigarro, a fim de restabelecer-me pelo systema homoepathico:—similia similibus curantur.

As minhas relações com el-rei D. Luiz dataram d'esse dia.

Depois d'isso voltei algumas vezes ao Paço para offerecer a el-rei um exemplar dos livros que ia publicando.