El-rei dizia-me invariavelmente:{14}
—Procure-me sempre que precisar de mim.
De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto, el-rei riu expansivamente, e mandou-me fumar cigarro. Mas, porque estivesse fumando charuto, soprava ao fumo para o afastar.
Um dia... um dia tratava-se do pão quotidiano, do bem-estar da minha familia. Eu vegetava, havia dez annos, amarrado a um obscuro logar de amanuense. Muitas vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado melhorar de situação. Iam reformar-se os serviços da camara dos pares; creavam-se logares de redactores. Mas as pretensões, e algumas d'ellas fortemente apadrinhadas, fervilhavam em torno de Fontes. Desejando um d'esses logares, mas não dispondo de influencia que pudesse dar-me probabilidades de ser attendido, lembrei-me do repetido offerecimento de el-rei.
Metti-me n'um trem, fui ao Paço. Cinco minutos depois era recebido por sua magestade, que me ouviu com a amavel benevolencia que sempre me dispensou. E, tendo-me ouvido, disse:
—Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo empenho. Havemos de ir até onde pudermos. É muito justo que lhe dêem alguma folga aos seus incessantes trabalhos litterarios. Não se póde aguentar por muitos annos um trabalho d'esses.
No dia seguinte, ás duas horas da tarde, falei a Fontes Pertira de Mello, que, logo que me viu, me fez esta pergunta:
—Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei?
Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente do meu pedido com a maior pressa e solicitude. Desde essa hora julguei-me despachado.
—O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.ª