A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.

O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de Santa Isabel até ao cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu braço. Assim fomos conversando até{107} ao cemiterio occidental no meio da multidão immensa.

Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura intitulada Hommage aux lettres latines, as suas ultimas composições poeticas. Ahi se póde ver com que primor elle manejava a lingua franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e pendendo á terra.

A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata com este homem superior, que tão poderosamente contribuiu para impulsionar os progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da Silva, e é caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que a opinião publica passa por uma evolução demorada tanto para apreciar como para depreciar um escriptor fallecido—especialmente para aprecial-o. Quanto tempo não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Fernão Mendes Pinto? E o proprio Camões teve que esperar trezentos annos por uma apotheóse nacional.

No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle cantou em 1857 na poesia Mare magnum. A descripção das furnas, tão bellas e tão agrestes, é de mão de mestre:

Não vos lembraes?—Além do manso pego,
O mar, que vem do largo, e que não cessa,
Da vaga arquea a cuspide irritada,
E, com impeto cego,
Á insensata escalada
Dos immoveis penhascos se arremessa.

Quem ha de commetter a louca empresa
De tentar a passagem tortuosa
Que alguma convulsão da natureza
Abriu sobre a voragem tenebrosa?{108}
Do rolo immenso a curva ameaçadora
Investe, galga, apruma-se, desaba;
E quando o turbilhão que o ar devora,
Trovejando rebenta,
Parece que á tormenta
A terra não resiste e o mundo acaba.

Pelas rugas da penha sacudida,—
De niveos flocos inda guarnecida,—
Depois que o mar bramindo atraz volvêra,
Um veio d'agua, rapido e sombrio,
Deslisa; qual em rude face austera
De um triste ancião, que a idade encanecêra,
O pranto corre em fio.

Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra as furnas da Ericeira, recordará eternamente a verdade sublime, a hipotiposis felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e simultaneamente o nome de Mendes Leal.

O oceano vingará a ingratidão dos homens.


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