XII

Gonçalves Crespo

Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações em fóra, até o encontrar nos primeiros annos da sua vida, e da minha.

Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este pensamento de Garrett:

Saudade, gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho.

Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, toda a observação psichologica que essa bella antithese contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis decassiliabos que já não esquecerão mais em lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama á saudade um mal de que se gosta, e um bem que se padece; comprehendi o rei D. Duarte quando{110} no Leal conselheiro escreveu da saudade com uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaça e mitiga o coração...

Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanças, remocei com as minhas illusões de outro tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da morte—esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões que me fascinaram e pessoas que eu amei.

Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.

Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial.

Assim é que os poetas a definem; assim é que eu a sinto agora—melhor por certo do que nunca.