Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas as nossas relações vinham de longe, eram antigas na proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas creanças.

Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar de moços.

Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas mais ou menos habituaes, que eu já historiei{111} largamente no livro Atravez do passado—o meu primeiro livro de saudades.

Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o Angelo, um gallego.

Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada o primor da sua toilette, quasi sempre irreprehensivel.

Coisa notavel! Crespo não era então para nós um poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado; Alfredo Leão lia chronicas e romances[8]; mas Gonçalves Crespo flanava a pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento poetico com a publicação das Miniaturas.

Houve um periodo em que me separei de Gonçalves Crespo;—quando foi para Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direcção a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. Crespo frequentava o Café Portuense, na Praça Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo Angelo—recordando as nossas façanhas anti-ibericas.

Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel era para mim. A amizade cegava-o.

Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos Homens e letras, e tão falado ainda na tradição academica. Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar{112} a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente está em Lisboa.

Crespo dera-me rendez-vous para a noite, na livraria do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura, porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves Crespo viera passar o serão comigo no Hotel dos caminhos de ferro, onde eu estava hospedado.