Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito. Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como poeta.

Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o aço ao capricho da sua inspiração, e no soneto Animal bravio, offerecido a mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica do seu espirito:{113}

Preferiras um ramo caprichoso
De escolha rara e de um concerto fino,
Onde visses o cacto purpurino
E os nevados jasmins do Tormentoso.

Em vez do ramo exotico e oloroso,
Casto recreio d'esse olhar divino,
Acceita, Eugenia, este animal felino,
Que o meu braço subjuga vigoroso.

Tive artes de o amansar: eil-o sereno!
Acode a minha voz, e ao meu aceno
Como um jaguar a voz de um saltimbanco...

Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!
E á doce Eugenia, do sorriso honesto,
A fimbria oscule do vestido branco!

Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos Nocturnos:

ODOR DI FEMINA

Era austero e sisudo; não havia
Frade mais exemplar n'esse convento;
No seu cavado rosto macilento
Um poema de lagrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-n'o desmaiar, cair do assento,
Convulso e torvo sobre a lagea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliophilo comprára
O livro estranho e que, ao abril-o, achára
Uns dourados cabellos de mulher.{114}

Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha biographia para o Diario de Portugal[9]. A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de alguns e das injurias de poucos.

Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante.

O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e perfido.

Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da sua vida.{115}

A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta das Miniaturas e dos Nocturnos.