Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel.
Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se não viessem ordinariamente na idade em que o coração é forte e a imaginação exaltada?!
O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha{117} proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.
Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se fazia dos editores em geral.
Balzac, nas Illusões perdidas, tinha deixado a ethopea do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de poesias por lhe achar pouco peso. O poeta respondêra que voltaria com os seus versos copiados em papelão. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não pareciam resolvidos a substituil-os.
Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira como applicada áquella época: «Les lettres ménent à tout, à condition de les quitter.»
Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar publico.
Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos novos.
O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o terem sido.
Eu havia ido refugiar-me no Jornal do Porto, onde a vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje,{118} ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno, apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte.