O que não deixa de ser curioso é que, justamente no momento em que o mercado mais falta ao livro, o publico exige, como está acontecendo, que o trabalho tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.
De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor. Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre dispendiosas, das impressões de luxo.
Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela a toilette dos livros, passaste á historia, és uma recordadação apenas, nada mais!
A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade de encontrar um editor accessivel, mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão doirado irradiando de estipendio certo.
Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-ia O testamento de sangue. O Jornal do Porto e o ensino livre absorviam-me o dia; foi pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria,{119} que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle romance.
O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de redacção, alludisse ao Testamento de sangue.
Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando no Jornal do Porto se deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo publicados Os dramas de Paris, de Ponson du Terrail, arranjados sobre uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secção do folhetim com um romance que não fosse tão longo que prejudicasse a sequencia dos Dramas de Paris, nem tão breve que deixasse de preencher um compasso de espera.
—Se o teu romance não estivesse destinado para Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.
Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois publicar O testamento de sangue no Jornal do Porto, e escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que não tomaria resolução alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira; em segundo logar, que estando apenas traçados os primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, de escrever os outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu queria dar á novella.
Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter sido publicado em folhetim.