Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me,{120} na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade.

Comecei então a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim diario—encargo que eu acumulava com a minha collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações quotidianas.

Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de forças. Morava eu então no predio n.º 456 da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.

No livro Nervosos, lymphaticos e sanguineos deixei consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho com que eu tão irmanado estava—pelo destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre da Conceição, com quem eu sustentava polemica epistolar no Jornal do Porto.

«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»

Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o{121} precede é de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que o Testamento de sangue fôra escripto.

No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos, A Porta do Paraiso e Entre o caffe e o Cognac. Tive então occasião de conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira.

Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar alargando-a, tinha uma só porta e a montre. Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.

Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'este editor era insinuante; e as suas maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.

Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira.{122} Era seu filho, o actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia começado a trabalhar, emprehendendo a publicação de uma Encyclopedia litteraria, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha collaboração.