O seu emfim! devia ser a morte.

Todos os dias, de toda a parte—graças á actividade febril dos prelos nos ultimos vinte annos—recebia novos livros, que se iam empilhando em camadas alterosas á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a{127} um novo supplemento, que decerto já não esperaria concluir.

Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia do Diccionario Bibliographico Portuguez, como subsidio para os nossos trabalhos litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em relação ao seu tempo, é pouco.

Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não era um avarento, um Harpagão egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o conto—Como as borboletas se queimam—inserto no livro PORTUGAL DE CABELLEIRA (1875).

Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas em bibliomania. Era natural que, entre elles, disputasse encarniçadamente a presa. Julio Cesar Machado conta nas Mil e uma historias o caso interessante de Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel Rodrigues, do Pote das Almas.

D'esta vez Innocencio ficou codilhado.

A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o artigo Bibliophilos e biblomaniacos, na Encyclopedia litteraria, publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel azedume:

«Na classe dos bibliomaniacos improductivos, que capricham em accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de menção especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os leilões e a classica feira da ladra, na diligencia de prover-se de tudo o que nas diversas provincias{128} da republica litteraria gosa de algum apreço por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura, prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido reunir copiosissima somma de volumes, e não sem grande dispendio, com quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos vendedores que o têem por um caustico volante. Pois esta originalissima creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje por suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo de vinte e tantas linhas, servindo de explicação a uma reles lithographia, que appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de ephemera duração!...»

Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com excepção, talvez, do seu feliz possuidor.

Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E os que não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a publicação do Diccionario, com a riqueza dos thesouros acumulados por Innocencio.