O predio em que habitava—e que tem hoje uma lapide commemorativa—estava completamente cheio de livros, de alto a baixo. Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos do predio, unicos disponiveis.{129}
Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio. Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relações de amizade cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava trabalhando.
Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o. Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer terrivelmente. Não podia falar, não podia comer, não podia descansar com dores atrocissimas.
Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!
Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia. Despedaçava o coração vel-o soffrer. E—circumstancia que n'este momento me está lembrando com viva saudade—foi com o seu collar de academico que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda em honra do principe de Galles.
Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi. Innocencio.» Mas a sua lettra estava já inteiramente desfigurada. A morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.
Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, «Emfim!»
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