Tres actrizes
Vi no theatro de S. João do Porto representar a Manuela Rey, e parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illusão meio sagrada, meio profana—a de ter visto passar no palco de um theatro um cherubim de azas brancas e cabello loiro.
Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua historia vulgar no amor—como as outras. Mas vel-a era o mesmo que divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.
Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze branco e de conduzil-a á beira de um lago para que as estrellas e os lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e muito leve...
Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e um coupé que a conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.
Vi-a representar no Porto a Cora e recitar a Stella matutina, de Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa com a Visão dos tempos.{131}
Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do poeta:
Eu sou a filha d'Eva
Gerada em outro amor!
Caíndo a dôr me eleva...
Senhor, Senhor, Senhor!
Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz, vibraria exactamente na tremula modulação musical d'aquella garganta divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa mulher, destinada a
... servir de falla
Á dôr que emmudeceu