seria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey.
A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto todo o seu velho repertorio, a Joanna a doida, a Mulher que deita cartas, a Medea.
Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e Euripedes. A sua belleza decaía no esplendor de um occaso magestoso—como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe pulverisava os cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára no seu corpo de marmore. A expressão tragica dos olhos, a riqueza dramatica da voz, a amplidão esculptural do peito tinham-n'a fadado para a scena antiga, onde as grandes paixões humanas, para expludirem theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse vexado dentro de um manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros.
Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a da apotheose que os estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa.
Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte{132} na festa senão como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que não afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda ordem. Na platéa, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela, vozeavam applausos atroadores sempre que o himno da linda Emilia, como ainda então se dizia, era executado pela orchestra.
A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José Duarte, um poeta que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, João Baptista Pires.
Ahi vae a lettra do himno:
O robusto leão da victoria
De teus pés lambe a terra em redor;
Tua vida é um archivo de gloria,
O teu nome um augusto esplendor.Para ti nunca findam as palmas,
Nem os bravos que fazem tremer;
E do ouro de lei d'estas almas
Só tu podes um throno fazer.Nós que vemos os lumes ardentes
Onde Deus escondel-os nos quiz,
Vimos hoje dizer-te frementes:
«És sublime, és sublime, ó actriz!»Arde o peito em delirio o mais puro,
Cada olhar ao teu nome reluz;
Has de ser immortal no futuro,
Que este fogo é baptismo de luz.Côro
Para a fronte onde o genio rebenta
É pequena a corda dos reis;
Ha no mundo uma só que lhe assenta:
A corôa dos nobres laureis.
Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, postos em pé sobre as cadeiras ou pendurados{133} dos camarotes de terceira ordem, por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo.
Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, tão differente, bem o póde dizer quem a viu, das ovações convencionaes que hoje se fazem aos nossos artistas com applausos de amigos e bouquets que se vão buscar ao palco para tornar a atiral-os.