O que restava do sonho era apenas a realidade...
Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso.
Este dissera a Emilia das Neves:
Agora que aos teus pés, mais uma vez,
As rosas vem cobrir a tua estrada,
Acceita esta homenagem não comprada,
Mas filha do caracter portuguez!
Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, mas o genio dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admiração dos poetas, que não vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza.
Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia Judith. Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me nitidamente dos lances capitaes da peça, sobretudo d'aquelle em que ella degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas de guerreiro.{136}
Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria ardido n'aquella noite.
Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela estudantada n'uma especie de «marche aux flambeaus», que se improvisou com mais enthusiasmo do que archotes.
Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um dos hoteis da Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante a ovação, ao ar livre, e frio como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações estavam quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam estentorosas pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calçada da Madeira abaixo.
Emilia das Neves, abafada n'uma capeline branca, recebia da janella do hotel as saudações, alvejando como uma visão de Ossian ou de Macpherson; para o caso pouco importa.