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XVI

Actores celebres

Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequeno chalet alcandorado pittorescamente sobre a praia dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa convenção, o ar do mar.

Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci, e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;
mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;
golfão de riso e dôr, que ora serena,
ora referve e escuma em sanha rude.

Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que pelas magras sopas que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.{140}

Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um oiteiro no convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje não sabem o que era um oiteiro. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios, que a tradição da extincta Arcadia conservou ainda por muito tempo. O oiteiro era o festival com que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador de oiteiros. No meu tempo, as coisas tinham mudado já. Havia recepção na grade da abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada recentemente eleita. Fóra da grade havia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O mote era ainda obrigado, mas não constituia o unico elemento essencial da festa, como n'outros tempos.

Foi n'esse oiteiro que eu ouvi Marcolino recitar, não uma poesia comica, como se poderia esperar do genero que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas uma poesia lirica, A borboleta, de Thomaz Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretação.

Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda: