Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando de uma familia orphanada, o theatro portuguez soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.
Era o Delphim que pranteava a morte do rei...
Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.
Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer partidas: algumas conta elle proprio nas suas Memorias. Como actor comico, mereceu a celebridade que teve. Quando cantava com Taborda o duetto de Moysés, ou representava os Dois candidatos e Para as eleições, era da gente rebentar a rir.
Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente, triste, muito velho. A troça indigena mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um defeito de escola, mas, em compensação, todos os artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha, para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.
No trato particular, um perfeito cavalheiro.
Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia então um logar na alfandega.
Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio do Adamastor, de Camões, e o Firmamento, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma reprise do Marquez de lá Seiglière, que foi o seu cavallo de batalha.{147}
Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres, de que tenho falado, o mais poseur: toda a gente se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas.