Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis

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Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni: «Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca: é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»

A sua dicção, um pouco saccadée, era cristallina, sonora. Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse estar melhor em scena.

Vi o Sargedas no Gaiato de Lisboa, no theatro de S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia o Gaiato como se estivesse ainda em idade de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice, só os consegue o talento.

Antonio Pedro é um morto de outro dia.

Fóra do theatro, a sua gaucherie passava em proverbio. No theatro era um grande actor por intuição, tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam{148} a ignorancia manifesta em questões de arte dramatica.

Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua organisação artistica.

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Com o Tasso convivi durante uma tournée, no Porto; com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer diabrura tipographica.