Que querem êles? Melhoria de salário e um pouco menos de trabalho. O mineiro, por via de regra, é sóbrio. Não tem desejos, não tem ambições. É um animal de carga, pobre bêsta suada e indefesa, e as minas são uma nova escravatura. Duvidam? Muito embora. São ainda as gazetas que nos informam que essas reclamações foram recebidas ... a tiro. Se isto não é escravatura, então...

A canalha revolta-se? Muito bem. Espingardeia-se. A canalha parlamenta? Acutila-se. A canalha não tem nome, a canalha não tem voz. A canalha é a canalha, nada mais.

¿Que ela um dia virá, quando o ódio se fizer avalanche, reclamar o seu quinhão na festa? ¿Que ela virá escrever nas paredes da sala o Mane, Thecel, Phares dos grandes cataclismos? Pura imaginação! A canalha não virá. E se por acaso vier, sim! se vier, encontrará uma muralha de baionetas e um cordão de metralhadoras. «La force prime le droit!», não é verdade? Sejamos positivos. Mais uma vez o direito ficará vencido.

¿Que a greve colheu a Emprêsa de improviso? De-certo. Pois a Emprêsa julgava lá que êles soubessem pedir, que êles soubessem falar!

O que a Emprêsa sabia era a média de produção diária por cada animal daqueles, por cada escravo, a que pomposamente persistimos em chamar mineiros. A Emprêsa só tinha um fito: Que cada homem trabalhasse o dôbro.

Que êles tinham Direitos? Que êles tinham estômago? Que queriam Justiça? Deixem-me rir. ¿Que diabo se importa a Emprêsa com isso?

A Emprêsa explora-os; os capatazes, seus mandatários, esbofeteiam-nos. Oh! filantrópica Emprêsa! Pois êles só esbofeteiam? Vamos lá. Podiam muito bem açoitá-los, crucificá-los e esfolá-los. Só esbofeteiam!!!! Se na acta da assembleia geral lhes não fôr exarado um voto de louvor, por tanta humanidade, hão de concordar que é uma refinadíssima pouca vergonha.

¿Mas, realmente, os mineiros revoltam-se? Pior para êles. ¿Esquecem-se então de que a Emprêsa tem pelo seu lado a fôrça, e que os esmagará irremediávelmente? Fazem greve? Mas a greve termina aonde a fome principia. Quem ficará por baixo? O mais fraco.

Ora quem capitula não impõe condições, aceita-as. A fome principia e ei-los novamente escravizados. Então, como um exército vencido que entrega os seus troféus e as suas bandeiras, os grevistas entregam os seus direitos, os seus sonhos, as suas utopias, as suas ambições. E voltam novamente ao escuro da mina, ao ar irrespirável, à meia-fome, ao trabalho extenuante, emquanto os directores da Emprêsa recomeçam a partida de bilhar interrompida.

Courrières fêz 1:200 vítimas.