¿Sabem o que mais comoveu a Companhia exploradora? Não foi a ceifa de mil e duzentos homens válidos, de mil e duzentos cérebros e corações, de mil e duzentas vidas. Não foram os lamentos de mil e duzentas famílias que se carpiam, que ficavam na ruína e na mendiguez. O que a comoveu foi a ruína, a perda dos poços, o ruir das galerias, os motores paralisados e torcidos, as máquinas destruidas. Foram os lucros que não se realisaram, os dividendos que não se distribuiram.

Um homem a quem roubaram a bôlsa pode lá preocupar-se com a morte em casa do vizinho!

Oitenta por cento dos desastres é culpa das Emprêsas, que não teem outro fito senão roubar à terra a matéria que as há de enriquecer. A segurança dos operários só é assegurada quando a falta dela pode prejudicar interesses de senhores. Os acionistas, emquanto o dividendo corre, claqueam. E êsse rega-bofe é às vezes interrompido pelo estalar dos travejamentos, pelo ruído das derrocadas, pela grita dos feridos e pela lembrança dos que lá ficaram no silêncio das galerias, irremediávelmente.

Pois apesar de tudo, possível é que os mineiros não sejam atendidos. Para admirar será se o forem. Apesar do perigo que correm, a doença à espreita, a morte perto, a velhice impossível, as suas reclamações parecem absurdas aos Directores.

Se, como no Germinal, algum Maheu ignorado levanta a voz para dizer «a sua miséria, a miséria de todos, o duro trabalho, a vida de brutos, a mulher e os pequenos gritando de fome em casa»; para dizer que é uma iniqùidade uns morrerem de fome e outros de indigestão; para dizer que é uma torpeza uns morrerem de trabalhar tanto emquanto outros bocejam à regalona, a Direcção promete estudar. Não estuda nunca. Mas a voz dêsse Maheu, dêsse Maheu ignorado, ficará no espaço acusando, e marcará com um ferrete de infâmia o crime, êsse crime inaudito ratificado em uníssono por três mil peitos; o crime deles andarem ali a 800 metros debaixo da terra, arquejantes, famintos e ignorantes, para que Calígula, o doido, ponha freio de ouro ao seu «Incitatus» e Nunes, o patife, mate cães a tiro na quinta da Formiga.

O mesmo devia pensar aquele Suvarine, o russo, que nos aparece como um herói, quando nas trevas, alta noite, suspenso sôbre a fundura do poço, armado de trado e serrote, começa no revestimento da mina a sua obra de destruição.

Um sábio português

Era inquestionavelmente um sábio êste pobre Ferraz de Macedo dos crânios, sôbre quem o dr. António Aurélio da Costa Ferreira vem de tratar num opúsculo sentido e sincero. Um sábio a valer, com amor quintessenciado aos seus crânios, às suas medições, e a sua admiração pelos snrs. Quatrefages e Manouvrier. Não vai o tempo para sábios e êle ressentiu-se disso. Faltou-lhe a atmosfera de carinho a que todo o homem tem direito. Em vida foi um misantropo vivendo a vida sonhada de todo o cerebral que se sente distanciado da sua época, um século adiante, perdido da sua tríbu e tendo só a confortá-lo os seus cadernos de notas e uma fé, uma vontade, mui digna de encomiar-se. De resto nem a atenção dos poderes públicos lhe deu audiência senão à pressa, nem êle teve nunca geito para o palavrear solerte dos vivedores profissionais.

Fortuna, emquanto a teve, houve por bem desbravá-la em todos os justos e generosos empreendimentos. Publicou o Cancioneiro da Vaticana e amorosamente coleccionou bem um milhar de crânios sôbre que deixou curiosas notas e estudos preciosamente documentados. Que, já Fialho de Almeida o disse, no seu artigo dos Serões, não seria êle um sábio que farolizasse ignotas brumas da sciência, mas foi um documentador paciente, um consciencioso observador, cuja rigorosa análise tem crédito no mundo scientista e profissional. Ribot confirma. Abaixo dos grandes criadores, dos que descobrem, dos que trazem novos horizontes à humanidade, há os talentos que explicam comentam e desenvolvem as verdades descobertas e que pela sua experiência analítica são os que rotulam com exactidão a categoria da descoberta e muitas vezes tambêm a anulam. Seria um dêstes talentos Ferraz de Macedo. Mas que robusta energia, que frondosíssima tenacidade a enchia! Só isso o faria grande se êle já o não fôsse por trabalhos que tinham merecido de Manouvrier a opinião de ser «um homem conscienciosíssimo, um pesquisador infatigável e instruidíssimo, dotado de notável tenacidade» (Progrès médical—15-VI-1889), e de Quatrefages os melhores elogios na sua História geral das raças humanas. É inútil dizer o resto. Morreu pobre, esquecido e crente. Nenhuma indiferença, nenhuma ingratidão, nenhum desdêm pôde soterrar-lhe a crença. Quem nos déra a todos nós a tranqùilidade espiritual e o desdêm bondoso da sua alma. E tiro o meu chapéu. Não há impugnadores de que êle fôsse um sábio, um verdadeiro sábio.