Esta separata agora publicada pelo dr. Costa Ferreira é uma bela obra. Os nomes dos grandes mortos são como as plantas. Precisam de jardineiros, cultores apaixonados, tratadores conscienciosos e dedicados, senão breve vem a delir-se na memória das gerações e o seu derradeiro pouso é nas páginas dos livros especialistas a que lá de vez em quando um ou outro compulsor estudioso sacode o pó e afugenta a traça. Precisam de quem buzine ao vulgo, para escarmento duns e exemplo doutros, a sua vida e as suas obras. Sempre assim se tem feito.

O nome de Ferraz de Macedo não podia encontrar mais piedoso cultor do que o seu discípulo e médico Costa Ferreira. Possuido do mesmo acendrado amor aos estudos antropológicos, amando o mesmo ideal, Costa Ferreira dele recebeu as últimas vontades. Foi êle o testamenteiro de «mil e tantos crânios, trezentos e tantos esqueletos, de origem conhecida, reproduções estereográficas de crânios célebres dos principais museus da Europa, tudo medido e rigorosamente observado e, com êle, arsenal antropológico e livraria» que Ferraz destinou ao Museu da Escola Politécnica. É êle tambêm que, cumprindo um último prometimento, tomou à sua conta o não deixar esquecer o nome do mestre e continuar-lhe a obra apoteotizando-lhe o nome numa contínua e modesta memoranda dos seus trabalhos.

Piedosa homenagem esta, tanto mais para encarecer quanto é certo que, dada a indiferença geral e oficial, ninguêm tal encargo tomaria. Morreu, acabou-se. Trate cada um de si e já não é pouco! Auscultem um milhar de criaturas e digam-me se não é assim que elas pensam!

Falho de senso prático como todo o cerebral, êle só tinha uma única paixão: a sciência. Só ela o vulnerabilizava, babando-se diante duma esquírola do homem terciário. Fora da sciência, não vivia. Nada sentia que não fôsse passado pelo crivo dos seus apontamentos e pela ideia dos seus crânios. E tão afastado o traziam os seus estudos, da vida vívida, que breve iria à mendiguez se mão provedora e amiga não fôsse, acordando o sábio do seu reino encantado, cuidar-lhe da mantença.

Nessa abstracção tão funda viveu, com seus canários os pequenitos da vizinhança, os seus crânios «como num celeiro o grão que espera embarque», medidos, e, ensacados por êle, com mão reminiscenciada dos seus tempos de aprendiz de alfaiate, e os seus gatos, que morreu sonhando. «Depois de morto é que eu viverei... Para os novos é que eu apelo. Êles que me continuem e me vinguem». Tais foram as suas últimas palavras, erguendo-se num repelão e visionando ainda uma visão acariciadora. Não voltou a falar. Costa Ferreira tomou o encargo piedoso de o lembrar, de o não deixar morrer de todo, na ingratidão indígena. Tal disse e tal cumpriu.

O sábio morreu. Os jornais titubiaram, os amigos escapuliram-se e, mais tombo menos tombo, lá ficou no seu coval, talvez ainda com saudade dos seus crânios e dos seus apontamentos. Solitário como foi em vida, assim o foi na morte. A sua apoteose não chegara ainda. Os gazeteiros não carrilhonaram às multidões cretinizadas nem sequer o «ilustre e o distinto» da cozinha trivial. E como morrera pobre e modestamente se enterrou, tambêm não panegirizaram a criatura com girândolas de adjectivos surrados pelo uso e abuso da pindarização de todo o fiel bigorrilhas que morre e deixa ôsso que roer.

Depois talvez fôsse assim melhor. ¿Que tinham que ver com êle os adjectivos?


Se agora a matula egoísticada bichanava sempre que o via um apodo desdenhoso, que resvalava do seu arnez de indiferença pelo que diriam, tão longe andava dos que com êle se acotovelavam, em tempos idos não faltaria o ingranzeu das turbas e o rumor falaz das vélhas macbéticas do sítio, taxando de pacto diabólico o seu estudo, qual outro Cláudio Frollo.