Todavia êle sem se agastar da indiferença duns, da parranice doutros e do criminoso egoísmo de todos, contente se dava com a sua estreiteza e, não requerendo melhoria de sorte, cada vez mais se apartava do mundo real para o mundo de sonho. O trabalho para êle era tudo. Confinava a sua casa com as estrêlas, vista cá debaixo, da cidade, sitando lá no alto, ponto negrusco zimboriando o alto do monte. Uma árvore anciã, fronteiriça, foi sua companhia e só ela talvez cogitou na sua labuta interior. Ventos brigosos sinfonizavam óperas de tormenta, numa orquestração como só a tem o infinito. Tudo as sentia. A árvore vélha bracejava agitada e angustiosamente. A cidade lá em baixo era um torvelinho de cousas indistintas. Só êle prosseguia, medindo, classificando, registrando. E podia um vento mau terremotar a casa. Podia um tufão furioso ir desmoronar as sacas de crânios e formar no adro a pilha de crânios que é o quadro de Verestchaguine, aquele pintor russo que morreu na guerra russo-japoneza a bordo do Petropavlosk,—Après la bataille. Êle não sentiria, êle continuaria as suas notas, e só as terminaria quando nada mais, nenhuma sutura, nenhuma bossa, nenhuma asimetria, houvesse a notular.

Se nunca foi aos cornos da glória é porque lhe faltava a destridade dos malabaristas do reclamo. A sua tratabilidade de sábio raso, sem alardos de sciência, nem emprenhidões de basófia, contumaz em lusas celebridades, de todos o tornaram querido. Depois um quási nada de antropófobo, a antropofobia do sábio que se ensimesma em lucubrações profundas, e gasta a vida à luz estudiosa. Era esta que, pelas negridões da noite, brilhava sempre no seu gabinete, como na sua mente brilhou sempre a fé, a fé numa perfectibilidade do homem e uma consolação no estudo, que, estou certo, afinal talvez nunca chegasse a encontrar, que o tornavam quási um estranho a tudo, a todos os arruídos e quermesses que lá ao fundo convulsionavam a cidade.

E quem sabe lá, a esta hora talvez êle esteja ainda contando ao verme as palavras enternecidas dos snrs. Manouvrier e Quatrefages e as saudades dos seus crânios muito amados.

Então da outra vida, pensam as almas crentes, o sábio abençoará de-certo e tarefa bondosíssima, devotada e carinhosa do Dr. Costa Ferreira.

Emigrantes

Paro diante da reprodução dum quadro. É do Salon dêste ano, intitula-se «Émigrants» e assina-o Paul Sieffert. Eu não conheço o pintor. O assunto conheço demasiadamente. Se não viram o quadro, eu conto. O quadro do sr. Paul Sieffert é uma gare ou cousa que o valha. Cai neve. O horizonte é longínqùo e a perspectiva monótona. Nem uma árvore, nem uma planta. Neve, montes ao longe, neve sempre. Á direita vagons. Vagons de mercadorias, vagons que esperam tempo de seguir, levando não se sabe o quê, ocupam quási tôda a tela. No primeiro plano uma mulher sentada no chão estende um peito à voracidade do petiz que manduca. O macho, dorme ao lado, cabeça sôbre uma perna sua, braço estendido ao longo do corpo. A mão é primorosa. O busto bem estudado. Na cara—a cara é tôda uma psicologia—mostra a estereotipia de inumeráveis privações. Parece repousar, ou sonhar, cavada a face, bem vincadas as rugas que a angústia marca a baixo relevo no rosto dos que sofrem. A mulher ao lado cogita. Parece olhar-nos. Não olha. Ela não vê. Scisma! Em quê? Só ela o poderá dizer. Uma trouxa mísera, junto, é tôda a bagagem. Êle tipo de operário, ela de fêmea resoluta e sofredora. Vão partir. Vencerão? Quem o saberá?

Não sei porquê, são-me simpáticos estes tipos. Se pudesse, protegia-os. Sucede muitas vezes a minha piedade ir de preferência para os tipos que os meus pintores ou os meus artistas me entremostram—tão pouco a merecem, os que a gente topa todos os dias. Ao lado uma ranchada manduca, ainda. Mais longe, pequenos ranchos, trocam esperanças. Um vulto, ao fundo ou quási, remexe a maleta. E, como se o pintor os quisesse destacar, aparece-nos, quási escondidamente, um vélho que sonha, pelas costas um vélho capote, no olhar uma nostalgia feroz, contrastando com um homem que, de bruços, rosto apoiado na palma, scisma. Não scisma em sonhos. Scisma em realidades. A energia da sua expressão traduz-se assim. É amargo. Êste homem sabe da vida. Há combates no seu cérebro. Vencerá? Todos êles vão partir. Ilusões, quimeras, esperanças, é a bagagem. Sabe-se lá quem vence?

Até aqui o quadro. Se a agente quiser realidade, apesar da tela ser de Paris, temo-la bem perto. Nós somos do país da emigração. O quadro de Sieffert é tambêm nosso, com a diferença de o nosso ser de mais recrudescível agonia. O português é mais triste.

Todos os dias desembarcam nas estações, mangas de gente engajada que sonhou e ainda vem sonhando. Vão até ao Brasil e são o que se chama emigrantes. Então pagam a patente à realidade. O emigrante, por via de regra, não sabe escrever. Soletra às vezes, mas é mais frequente não saber. Não sabendo ler, não tendo a confidência muda da escrita por derivativo, estes cérebros deitam-se a sonhar como nunca sonhou ninguêm. As histórias das princesas encantadas, as mágicas, os contos da carochinha e mil belezas populares foram criadas de-certo por quem não sabia ler nem escrever. O Sonho é a válvula. Ai daqueles pobres cérebros se não tivessem o Sonho! Terminariam no suicídio. Mas o Sonho é a miragem. Acreditou alguêm no Sonho? Sempre êsse alguêm pagou caro a sua confiança. Porque é certo: Só quem teve pesadelo acordou em realidade. Quem sonhou delícias acorda mais brutalmente—como alguêm que tendo vivido dois meses em quarto escuro o trouxessem de repente para a alacridade duma paisagem batida da soalheira.