Sonham em Portugal, na solidão tranqùila da sua choça e quási sempre vão acordar em longínqùas e estranhas terras. Olham em volta. Quem? Ninguêm amigo. Indiferentes, criaturas a quem a dôr alheia, à força de vista e assistida, embotou tôda a sensibilidade. A saudade é o pior inimigo do emigrante. «Saudade gôsto amargo de infelizes, delicioso pungir de acerbo espinho», diz Garrett. Mas a saudade é tudo. Se se vê o mar, é um vapor que vem, porque vem; se um vapor parte, ai quem déra ir com êle, partir tambêm com êle. São os poentes, duma melancolia infinita, são as noites estreladas e tropicais, são nuvens que passam correndo, farrapos de sonho, recordações da infância, cousas dispersas. Tudo é saudade. E o pobre animal, bêsta de carga, gaguejando comoções, tem nos olhos uma angústia latente, uma tristeza intraduzível, mixto de resignação, de sofrimento e dum consuntivo mal. Mas, parte. Armazenam-o a bordo, num dêsses casarões flutuantes, âmbito estreito, muito desabrigo, trato mercenário e uma grade que os enjaula num restrito círculo de vida. Ali dormem, comem e sonham promíscuamente. E naquelas longas noites de travessia, enxugadas as lágrimas da partida, estranguladas as saudades da largada, só o mugir surdo das vagas lambendo o casco e os ronquidos surdos da máquina cumprindo o seu fadário. Pobres almas divagantes, vão tambêm embaladas no sonho, confiadas, e não escutando, no marulho do oceano, a sua raiva fria e hostil, mas um cântico embalador, que traz de onda em onda, de vaga em vaga, as recordações distantes, a misteriosa correspondência dos entes queridos que ficaram em terra.


Chegados, caidos no vértice duma vida estranha, tudo lhes é agressivo. Os dignos de piedade são intrusos. Que querem? Ganhar a vida. Que sabem? E, quando os míseros mostram os braços, já está lavrada a sua condenação. Como a Terra Mater é saudosa! E começa a agonia de viver a vida que já viveram, porque não é outra cousa a saudade. Mas viver só imaginativamente. Se beijou vai-se para se beijar e estendem-se os lábios para o vácuo. Abraçou-se e é só o espaço que se encontra. Passa a viver-se aflitivamente. Pesa mais a enchada. A serra é colossal. E como a planta dos trópicos que conduziram à Groenlândia, ou como o símio que julgasse a banana definitivamente extinta da face da terra, a criatura amarelesce e pende. Há um remédio—o regresso. Quando partiu, se é sonhadora, padece, se é desprendida pode triunfar talvez. Mas quantas lutas? Quantos esforços? É por isso que os brasileiros,—é assim que se denominam os emigrantes que partiram cedo e foram enriquecer ao Brasil—teem quási todos barriga grande. Porque se acostumaram a armazenar o sonho no estômago. Saudades, recordações, qual!—comer, beber, ganhar. Mas são raros. Os que voltam veem desanimados. Os que por lá estão vão vivendo. Depois o emigrante é sonhador e ignorante. Duas más qualidades. Há ignorantes que fazem fortuna mas nunca ninguêm viu coalhar dinheiro a um sonhador.

São ambiciosos? Alguns. Outros partem com o fatalismo trágico de quem vai cumprir um destino. É o caso do vélho do quadro de Sieffert. Os ambiciosos ficam por lá, raramente voltam e geralmente o ambicioso verdadeiro é cosmopolita, não vive para a saudade nem para ninguêm que êle não seja. Por isso vence. Os outros vão e quási sempre ficam. Mas se voltam—pobres emigrantes—trazem um saquitelzinho com desilusões,—o espólio dum sonho morto,—um grande desânimo, a alma mais fenecida, o cadáver mais surrado e uma grande ânsia de voltar—que é isto que quási sempre traz o emigrante quando volta:—o saquitelzinho com o espólio dum sonho morto e uma grande ânsia, aquela infinita ânsia do regresso.

Gabriéllo d’Annunzio

Mão carinhosa e amiga manda-me de longe a última tragédia de Gabriéllo d’Annunzio. A edição é luxuosa e o livro chama-se La Nave.

Exactamente no momento em que o correio me bate á porta, leio eu Fradique Mendes na sua Correspondência. Não sei que destino mau nos pôs frente a frente de novo. Os livros são conhecidos vélhos e tambêm entre os livros, como entre os conhecidos, há íntimos. Pois encontrei-me de novo com Fradique aquela manhã em que dava uma volta pelas estantes, como se Fradique viesse Chiado acima, neurastenizado e aborrecido e eu lhe propuzesse uma cházada em comum. Devo declarar porêm, que Fradique não é meu íntimo. Fradique é um aristocrata, snob um pouco, e muito pretencioso. É tambêm um vencido da vida que se dá ares, mas confesso-lhes, prefiro aos vencidos os vencedores. Ia eu exactamente quando Fradique se revolta contra as «ideias feitas,» fala daquelle Cornuski, ou que o pareça, e diz das angústias críticas do russo. Diante das mais belas obras, Cornuski sentia a dúvida que o minava. ¿Não seria êle que não sabia ver? ¿Pois era lá possível que todos se tivessem enganado? E duvidando, achando as grandes obras sofríveis borracheiras, ou quando muito toleráveis banalidades, o desgraçado repetia para aturdir-se um pouco:—«Como é belo!»

Agora estou eu assim diante do livro do escritor italiano. Eu não tenho paixão por d’Annunzio.

Acho-o cabotino até ao infinito. O seu cabotinismo não se pode medir. O seu talento êsse sim. E duvido. ¿Será d’Annunzio o grande escritor que eu ouço dizer a todos? Debalde busco as suas obras, debalde leio os seus livros. Que demónio! Não me admiro, não me comovo, não rio, não choro, não sinto. Sim, porque nenhum dos livros de d’Annunzio nunca me fêz chorar ou me fêz sentir. São bem feitos, não resta dúvida. Mas que diabo! E dão-me ganas de o correr das minhas estantes. Desconfio muito que seja um intrujão.