D’Annunzio é para mim um belo decorador. A sua arte é scenografia pura. Há sempre flores e perfumes nas suas páginas. O lilaz é talvez a sua flor preferida. O poente a sua hora predilecta. Os seus heróis não amam, lirizam. Os seus personagens não falam, murmuram; não sentem, representam. E, para que ocultá-lo, apesar da sensualidade capitosa que os inunda, iria apostar que são todos castrados.
Para d’Annunzio o amar é assim como que uma oração, como que uma doce e suave embriaguez. Não é a rajada que passa, dominadora e perturbante, não é um cataclismo, não é uma tempestade. Não é. O amor nele é leve, muito leve, imaterial, bizantino e todo espiritualizado. Há sempre luar e sempre músicas celestes vibram psicologias profundas.
Mas eu leio d’Annunzio. Leio-o mesmo muitas vezes para ver se o percebo. E no meu espírito fica uma impressão muito vaga de tudo aquilo, muito vaga e muito dolorosa. Porque, decididamente, não tenho olhos para ver aquelas belezas tôdas e o meu espírito não pode, sem Bœdecker, penetrar naquelas regiões encantadas da prosa.
Um livro há que eu guardo, que leio com prazer e tenho como óptimo. É o seu Episcopo & C.ª e os seus contos. Êsses sim. Ponho-o a par dos deliciosos de Guy de Maupassant. Ali há sinceridade e eu sinto quando os leio. A operação feita a bordo do lugre Trindade e o seu São Pantaleão de pedra, que esmaga a mão a um dos condutores, que depois lha vai oferecer, são prosas magistrais. Mas, declaro: O Fogo é qualquer cousa de ultra-humano, de divino, do demónio que os leve, que não sei o que êle quere dizer. Não me falta vontade para o compreender. Mas aquilo ainda não é para mim. Linguagem para deuses só a deuses é compreensível. E, à hora do poente que êle tanto prefere, o céu lilaz, lilaz a terra tôda, a treva abraçando o mundo, vindo a curvar-se num beijo sôbre o dia que morre, eu volvo desanimado:
-Deve ser essa a razão!...
D’Annunzio representa o homem para quem o nó da gravata todos os dias é uma tortura. Tenho a impressão de que êle se perfuma e é incorregívelmente, viciosamente dandy. Da sua vaidade não falemos. Deve ser infinita a vaidade dêste pobre diabo, contou-me uma vez o Eclesiastes.
A sua prosa é tambêm assim. Não tem arestas. Tão harmónica, que parece ter cópula com a música. Ricamente vestida, mas só isso. É mesmo o que a caracteriza. Se o desideratum é agradar às mulheres, d’Annunzio deve ter conseguido, porque às mulheres agrada-lhes sempre o que não percebem. Depois, a feminagem perfumada que impregna os seus livros faz com que seja buscado com prazer e com prazer deixado. Daudet, na minha estante, está perto. E, devo confessar-lhes, eu adoro Daudet. Daudet é o poeta da vida. Objectam-me que d’Annunzio é um poeta. Mas Daudet faz a poesia da prosa, com princípio, meio e fim. D’Annunzio é indiferente. Leiam os senhores os seus livros por onde quiserem e encetem a leitura por qualquer página. Isso não fará diferença. Faz sempre sentido. Há lilaz em tôdas as páginas. Poeta foi Gauthier e eu ainda hoje o leio com prazer. Tem muito de misticismo êste Gabriéllo! diz uma dama. Pois bem, minha senhora, o lugar dos místicos é no céu. Queira dizer ao seu d’Annunzio que mude de feitio senão perdeu um freguês. E é que nunca mais o compro!...
Uma cousa curiosa que eu tenho notado é que entre os artistas que não teem gravata e aqueles para quem o nó da dita é uma preocupação, os primeiros teem sempre mais talento. Não sei porque, mas creio que entre um Verlaine que morre no hospital e um Gabriéllo que manda fazer o mausoléu em mármore, o do hospital vale mais. Mas eu não discuto! Os senhores não se zanguem, ou zanguem-se embora, que eu nada lhes levo por isso. Isto é comigo sómente. Se eu lhes digo que prefiro o Baudelaire ao Torquato Tasso!
Se d’Annunzio é poeta, é um parnasiano. Se é prosador, a sua prosa talvez seja poesia. Pela abundância de imagens, pelo colorido pouco vulgar, decoração e o não descrito, seja embora um poeta, como prosador gosto dele nos contos. As suas novelas não as entendo. Eis o que eu penso. De resto qualquer dos franceses ou dos espanhóis mas dá iguais. E se querem experimentar já lhes não digo que leiam d’Annunzio e logo Gauthier. Leiam por exemplo d’Annunzio e Suderman. Se vos não der a impressão que os livros de d’Annunzio são escritos por uma mulher, não sei que diga!
Tolstoi quando começou às punhadas a Shakespeare devia sentir a tortura do russo do livro de Eça. E todavia Tolstoi com tôda a sua mansidão, a sua paciência sofredora, a sua resignação passiva e néo-cristã não pode compreender a tempestade de paixões que é Shakespeare. Porque Shakespeare é o colosso do Ódio e do Amor, o Céu, a Terra e o Inferno. E eu penso que é preciso ser-se um vélho bruto para não compreender Shakespeare.