Outro tanto dirão de mim. Não compreender d’Annunzio? ¿O poeta do amor subtil, dos perfumes, dos lilazes, da volúpia perene, capitosa e aristocrata; o prosador imaterial, cheio de doçura, magistral, ilustre, divino, mirífico; a pena de ouro que traçou o Fuoco, o Crime, as Virgens? Eu sei lá! Mas é um crime! E estou repêso de confessar o meu pecado. Eu não sabia... E ponho-me a querer entender d’Annunzio. Tomarei um explicador. Porfiarei. A minha ignorância é lamentável. Mas, quando estou envergonhado e confuso um diabinho irónico vem e segreda-me ao ouvido que os outros, que o adoram, que o admiram, percebem-no tanto como eu.
Compreendo agora. É uma «ideia feita», o culto de d’Annunzio. E como o desgraçado Cornuski, eu, torcendo as mãos, na minha impotência de o compreender terei que murmurar desconsoladamente o meu:—«Como é belo!»
Um poema
(Carta ao general Henrique das Neves)
Meu amigo:
Já lá vai mês e meio de silêncio sôbre o recebimento do poema Apoteose Humana, que o meu amigo teve a gentileza de me ofertar em nome do autor. Só hoje lhe escrevo, mas lá diz o ditado... O amigo sabe o que o ditado diz. Pediu-me a minha opinião. Sem embargo dela ser uma opinião a pé, uma opinião infantaria, pacata, modesta e de bons costumes, vou dar-lha. Sou pouco amigo de dar, mas emfim...
Eu podia dizer-lhe cousas muito lisongeiras do poema do seu amigo. Podia dizer-lhe mesmo que ambos eram talentosos, modestos, bem criados, que recolhiam a horas, não fumavam, etc., etc. Mas não. Prefiro dizer-lhe abertamente o que penso, brutalmente, sem transigências nem banalidades. Portanto o que aí vai é rude, com a rudeza dum homem que não precisa para nada dos seus confrades em letras, consagrados, e não consagrados, e que vive «achando a quàsi todos os deuses pés de barro, ventre de gibóia a quàsi todos os homens e a quàsi todos os tribunais portas travessas» como já nos Gatos escrevia Fialho.
Bem se vê que o seu poeta, o sr. M. Joaquim Dias, nunca saiu do Faial. Se saisse não fazia poemas a uma cousa que não conhece senão em teoria:—O Homem. Mantegazza, que o estudou a fundo, sabe o que êle é; eu que lido com êle, ha muito sei o que êle vale. O que lhe digo em verdade é que êle nunca mereceu os versos do seu amigo.
O poeta julga o Homem pelos livros. Livros são, quàsi sempre, gramofones de ideias. Deixe-os cantar. Valia-lhe mais um ano de viagens do que ler todos os livros que tratam do Homem. É o seu amigo, médico? É teólogo? É psicólogo? É legista? Só assim se compreendia que êle conhecesse o assunto do seu poema. Porque o médico conhece o homem em tôda a sua miséria; o teólogo em tôda a sua estupidez; o legista em tôda a sua maldade, e o psicólogo em tudo isto junto. Mas o seu amigo é sómente poeta? Poeta, nada mais? Sim, isso vê-se logo. Poeta é sonhador. Os poetas teem ideias muito diversas de todos os outros mortais. São poetas e basta.