Pediu-me uma carta. A carta aqui vai. Se lha não envio particular, pelo correio, é porque receio que lhe introduzam algum décimo da lotaria espanhola e o amigo sofra transtornos por minha causa. Mais nada.


Logo no prefácio diz o seu poeta: «...Fiz, pois, uma apoteose ao Homem, a êsse ser que triunfou nas lutas terríveis do passado, que compreende os fenómenos e as leis e progride». Ora eu não admiro o Homem. Se algum sentimento tenho por êle ou é desconfiança ou desprêzo.

Deus, criando o homem à sua imagem e semelhança, foi um escultor bem medíocre. E pode limpar a mão à parede, se é essa a suprema manifestação do seu génio. Depois, maravilhosa forma de reclamo, deu às criaturas o poder de reproduzirem infinitamente a sua obra prima.

Ora diga-me, meu caro amigo: ¿Em que devemos admirar essa obra, essa vil e miserável máquina de ossos, nervos, músculos e tendões? ¿Que criou, que inventou ela de produtivo? ¿Inventou a dinamite, a melinite, a himalaíte? ¿Canhões que arrasam cidades, projécteis cataclísmicos, blindagens pavorosas? ¿E isso que vale? ¿Inventou os deuses, os reis, as religiões, os ritos e os dogmas? ¿E isso para que serve?

Antigamente, nos tempos primitivos, o Homem trocava um machado de pedra pela pele dum urso. Agora troca a mesma pele por umas pequenas rodelas de ouro, de prata ou de cobre, com uns números, a que chamou dinheiro, que são tudo, valem tudo e tudo podem.

Antigamente não pagava décimas, nem contribuições, nem impostos. Era senhorio da sua caverna e não necessitava de tomar óleo de fígado de bacalhau. Não tinha botas, mas não sofria dos calos. Com a invenção das botas vieram os calos, e com os calos o rifão que diz «quem tem calos não vai a apertos». Parece que o general vae concordando? Apenas falei em calos, pareceu-me ouvir dizer o meu amigo: «Diga-me cá a mim o que isso é!»

A mulher era nua e mentirosa. O homem era quási urso, porque o urso era quási homem. Ainda não havia médicos, nem boticas, nem literatos, e a poesia, meu caro amigo, tinha muito menos pau de campeche. O ar era de todos, a terra de todos era e cada um fazia o que muito bem queria. Depois é que veio essa pouca vergonha de arregimentar a gente, sob o nome de famílias, tríbus, nações, etc., que fêz com que viesse a praga dos chefes, chefes e mandões de tôdas as castas e feitios, qual deles mais nocivo e funesto: chefes de família, chefes de repartição, chefes de polícia, chefes de estado e até generais, meu caro amigo.

Os enterros eram todos iguais. Não havia enterros de primeira classe. Desconhecia-se o espartilho, a sobrecasaca, o chapéu alto, e as vantagens do algodão, que impinge por boa mulher o arenque mais chupado. Veja lá que temposinho!

Se os povos estavam em guerra era tareia bruta, mòcada de criar bicho. Mas não metia tiros. Era tudo a cacete. Ainda se não tinha inventado a metralhadora, o leque da Morte, nem a baioneta, uma navalha que por não se poder trazer na algibeira do fato, se traz pendurada à cinta, numa algibeira de lata.