Os deuses eram muitos, mas todos súcios, todos pândegos. E apesar de não haver jornais, todos sabiam perfeitamente o que se fazia no Olimpo. Se chovia é que Baco se empiteirara e que o vinho era branco,—que é bebida diurética. Vá vendo!
Caminhamos pois da liberdade para a servidão. ¿Onde está êsse progresso de que fala o seu poeta? Se êle me quere impingir que progredimos, porque mais isto, mais aquilo... temos conversado!
Quere um exemplo? ¿O general não padece de apertos de uretra? Ora suponha que padecia. Se fôsse no tal tempo vertia onde muito bem desejava, que ninguêm tinha nada com isso. Mas nestes tempos de progresso, vá o general fazer isso na rua, e verá o que lhe sucede. São dez tostões de multa. Vá vendo que progresso tão catita!
Mas que o progresso é indubitável... sim... não digo que não. Veja lá se nos tempos em que o homem se cobria de peles podia haver gatunos de carteiras! Isso podia êle. Ainda não havia bolsos! E se antes de se inventarem as casacas se corria perigo de confundir um criado de mesa com um conselheiro de estado!
Eu embirro com o meu semelhante. É, por via de regra, cínico, trapaceiro, mentiroso e velhaco. Li algures que êle era meu irmão... em Cristo. Deve ser intrujice, porque eu não conheço Cristo nem seu irmão.
Quando me estende a mão lá tem a sua fisgada. E eu desconfio logo que, se já me não embarrilou, está para me embarrilar.
Nestes tempos de progresso, tenho pena de não ser troglodita. Teria tudo que não tenho e sobejar-me-ia muito do que tenho. Seria feliz. Dir-me-há o general que hoje se sabe. ¿Mas que diabo de felicidade dá o saber que êles foram muito mais felizes do que nós? Olhe que saber alguêm feliz faz sangue mau. ¿E pode por acaso ser-se feliz, hoje? Não. E então podia.
Aí tem. Antigamente havia liberdade. A de hoje é só poética. O homem de hoje é um escravo e a sua carta de alforria é a morte. Se o general contesta lembro-lhe se não tem por desventura alguma décima relaxada. Não tem? Não tem, mas pode ter.
Como vê, não concordo com o tema da Apoteose Humana. Êle é de tal ordem que, se o poeta não merece que o general lhe dê oito dias de detenção, tambêm não é caso para louvor na ordem do dia.
Eu não concordo. Sou novo e conheço já um número avultadíssimo de patifes. O general é velho, deve conhecer muitos mais. O diabo então, que é velhíssimo, deve conhecer um pavor deles.