Tinha lido alêm de tudo isto aquele imortal louco que se chamou Julio Verne. Acreditava pois em maravilhas. Foi, viu e escreveu um livro, o que é uma linda vingança. Antigamente dizia-se chegou, viu e venceu. Daqui os amorudos lamechas fizeram o incomparável—chegar, ver e ser vencido. Isto é de molde dizer-se de joelho em terra, a mão no peito e assim um certo ar patético. Assim um certo ar bironiano, como se o pobre lord tivesse que ver com estas tolices. O escritor, porêm, lê, acredita, faz as malas, compra o bilhete, vai, roubam-no descaradamente em tôda a parte, é comido de percevejos cosmopolitas, percevejos que, tendo vindo da Cochinchina no couvre-pieds dum inglês, embarcam no outro dia na manta de viagem dum tirolês, encontra por tôda a parte caminhos de ferro, patifes, estradas reais intransitáveis, uma ignorância pasmosa e um fedor humano?! Que faz para se vingar? Puxa da caneta, uma caneta com depósito de tinta, puxa dos linguados e zás—sai livro. Em logar de contar o que passou, o que sofreu, as suas aventuras e os seus arrependimentos, as saudades que teve da sua casota e as vezes que torceu a orelha e ela não deitou sangue, não senhor! Conta cousas maravilhosas, fantasia, intruja e passa a balela aos outros. De tudo isto resulta um pouco: que todos os livros de viagem se parecem, exactamente como as cartas de amor, cujo fundo amoroso passional e estilístico está nesse livro de génio que se chama o Secretário dos amantes, tão genial que devia ser obrigatório, e que se não existisse se tornaria patriótico inventá-lo; e que as viagens me são extremamente aborrecidas, com o que ninguêm tem absolutamente nada.

Se o Oriente não trouxesse a etiqueta de Vicente Blasco Ibáñez, eu diria encolhendo os ombros e parodiando o verso célebre de Espronceda: «que haya un libro más que importa al mundo!» Mas não. Tive que o ler, e declaro que não perdi o tempo. O Oriente é curiosamente interessante, e interessantemente curioso. Há nele de tudo. Descrições maravilhosas, ironia fácil, graça, e de vez em quando até gravidade, uma gravidade nada protocolária, porque eu não sei o que isso seja em Espanha, quando me lembro da Marcha da Cadiz e do Morrongo.

Publicado primitivamente em crónicas, recolhidas agora em volume, êste livro nada destôa da obra de Blasco, mesmo se dissermos que Blasco é autor de livros maravilhosos como La Horda, Entre naranjos, Flor de Mayo e outros. E que, alêm disso, está horrorosamente traduzido em tôdas as línguas, como o Máximo Gorki, de quem um entendido me dizia outro dia: «Gorki é um mártir. Imagine que êle, escrevendo em russo, tem sido traduzido em tôdas as línguas e dialectos por aí abaixo». É assim uma cousa parecida com uma história contada aqui e que mil bôcas fôssem passando umas às outras até Alcântara. Cada uma tinha dado um átomo da sua originalidade. Tinha ido substituindo ou transformando. ¿Pois não é uma lei que «na natureza nada se perde, tudo se transforma»? Quando chegou a Alcântara a história está tôda transformada. Deixou de ser do seu inventor para ser duma sociedade anónima. Tal qual Gorki. «O Gorki em russo, diz o meu interlocutor, parece-se tanto com o que aí conhecemos, que foi traduzido do espanhol para onde havia vindo do francês e assim por diante, como uma galinha se parece com uma espada, para não dizer um ôvo com um espêto».

O Oriente deslumbrou Blasco. Foi, viu e publicou o seu livro. Acho bem. Acho bem, tanto mais que deu aos seus 20:000 ou não sei quantos leitores o prazer de ler um livro adorável e desenfastiadamente escrito, que nos põe bem com a arte e com as viagens.

E agora, que fechei o livro e me preparo para fechar a crónica, sempre lhes direi que o trabalho é uma cousa consoladora. Eu penso assim. O meu vizinho,—todo o cronista tem um vizinho pensador ou pensativo,—pensa que o trabalho é bom para preto. Não importa. Eu penso que o trabalho ainda nos põe bem com a vida e que, se assim não fôsse, eu não teria ido ao Oriente em espírito, não teria lido um livro magnífico e não teria gostosamente esportulado os seis tostões que me custou o livro de Blasco.

As flores

Certa ocasião em que, ido dos confins de Lisboa, me decidi a visitar o solitário poeta do Hereje e da Traição na sua casa da rua da Bela Vista, à Graça, ouvi dele, ao perguntar-lhe qual a sua flor favorita, a seguinte resposta: «Que sei eu, meu amigo? As flores são como as criaturas. Há nelas tambêm uma hierarquia. ¿Quem pode deixar de adorar uma dessas rosas do Japão, aveludada, enlanguescida, aristocrata, soberana? A rosa chá é uma duqueza formosíssima e decotada. Ah! a rosa chá! Mas tenho uma decidida predilecção pelo cravo rubro, o cravo sangue, estridoroso, flamante como uma bandeira desfraldada. O cravo petulante! A violeta é uma menina romântica. Há violetas que sabem de cor versos inteiros de Soares de Passos. A camélia é uma delambida. Não veste bem. Tem algo duma burguezinha carnuda e afectada. Mas não desadoro na sua humildade o cacto silvestre e a flor de lis».

Ora, como o meu querido Gomes Leal, considero que não há nada que se pareça tanto com uma linda mulher do que uma bela rosa. E por isso é que, sempre, ao ver uma rosa me lembro duma bela mulher. Ao ver um campo de flores, um jardim cuidado e mimado, como Alexandre ao espraiar os olhos pelo seu exército dum milhão de homens, não posso deixar de scismar em que tudo aquilo foi feito para morrer. Alexandre considerava que ao fim dum século nenhum de todo aquele brilho sobreviveria, nenhum dos seus guerreiros conservaria o seu porte marcial e humano. Eu, ao ver a montre dum florista, na falta de jardins por onde alongar os olhos, penso tristemente que nada restará daquela beleza ao fim de cinco dias. Envelheceram os cravos, murcharam as rosas, penderam os lírios, os amor-perfeitos secaram. O próprio funcho, o feto silvestre, êsses mesmos se vão secando. E de tôda aquela beleza nada resta, nada. Fôlhas sêcas, fôlhas moribundas, flores agonizantes. O tempo, impiedosamente, com sua mão gelada as tocou e lhes foi a pouco e pouco dando a morte...

Uma rosa branca é uma linda mulher. A mulher envelhece como a rosa; a rosa morre como a mulher. Conservo na minha vida uma grande saudade. Foi duma rosa branca, enorme, perfumada, que numa jarrinha, onde um par dulcíssimo e precioso, entrajado à Império e miniaturado à Watteau, dançava um clássico minuete, viveu, agonizou e morreu. Trouxera-a uma tarde, déra-ma não sei quem. Posta na sua jarra, depois de mil cuidados, a rosa era linda e desdenhosa. Linda e desdenhosa me acostumara a vê-la. Falava-me às vezes. O seu perfume dizia-me cousas estranhas, misteriosas, exquisitas, que me embriagavam, que me faziam sonhar.