Acostumei-me a corporizar a rosa.
Já não era uma flor com a sua anatomia que a botânica me ensinara. Era uma linda criatura, sonhadora, melancólica, fiel e amada, que me fazia feliz, mas que se definhava na sua solidão. A-pesar do calor dos meus beijos, do meu recolhimento profundo e magoado, ela foi-se «pouco a pouco amortecendo», como no soneto célebre de João de Deus. Uma dorida mágua a mirrava e entristecia. Sem saber porque, via a minha rosa tossir. Mimei-a. Incapaz de amar alguêm, de a alguêm ser fiel, ageitei-lhe o pouso, dulcifiquei-lhe a estada. Fui seu enfermeiro vigilante. A pouco e pouco, porêm, a-pesar-de todos os meus cuidados, emurchecia. Uma tristeza vaga entrou com ela. Perdeu o brilho. Do setim das suas fôlhas sumiu-se o lustro, e amarrotou-se como as saias de sêda que se metem a trazer por casa. Encarquilhou-se. E um belo dia, como aquela donzela dos versos de Vítor Hugo, que morreu valsando, a minha rosa morreu. Tombou da haste agonizante. Docemente, tristemente, assisti à sua morte. Vejo agora no fundo duma caixa, o seu caixão, aquela rosa que foi o meu único amor, e que é hoje a única saudade da minha vida. Porque amei estremecidamente aquela linda rosa aveludada cujo perfume ainda hoje me entontece. E não a posso ver, ao seu cadáver, uma múmia galante e ressequida, que não entristeça. Era tão linda!
Tambêm amo apaixonadamente as violetas. Diga embora o meu poeta que elas são românticas. Eu adoro os românticos, porque não sou no fundo mais do que um romântico que se travestiu em homem desta época para que o não roubem, para que o não assaltem, para que o não explorem, para que o não espanquem. Se adoro os românticos, é porque êles são afinal os únicos que sabem sentir e os únicos que souberam amar.
Camilo, o romântico apaixonado, amou outra vez ao escrever a D. Maria Izabel as cartas de amor que seu filho assinava. E pelo rapto foi uma flor que o vélho romântico indicou para dar o sinal no peitoril da janela da raptada. Uma flor! Camilo, que fôra um romântico tôda a vida, como um romântico amando, e odiando com uma sanha que só hoje se encontra nos vélhos alfarrábios, como um romântico morreu. Quem poria hoje uma flor? diz Alberto Pimentel. Ninguêm. ¿Tambêm, quem ama hoje as flores apaixonadamente? Um ou outro maduro que as cultiva, que as estremece e que as chora. Adoro as violetas. São simples e são modestas.
O perfume das flores é o espírito das mulheres. Há flores magníficas, supremas de graça, estonteantes de côr, que não cheiram. Não gosto delas. Há mulheres vestidas de setim, perfumadas a lilás, que não teem perfume. Quem as pode amar?
Os homens, querendo corrigir a natureza, fizeram flores de conta própria por cruzamentos e enxertos. Sairam flores macabras, flores canailles, flores que lembram cocottes, berrantes, auriflamantes, estonteadoras. Mas não cheiram. Não teem perfume. Como o pintor da antiguidade que encomendara ao discípulo uma Vénus e que êste lha apresentara ataviada, mas feia—gargantilhas de pérolas, barreira de ouro, colar de diamantes, pedraria em profusão—as flores cruzadas são lindas mas não teem perfume. E logo a resposta do mestre nos vem à bôca: Fizeste-a rica porque a não pudeste fazer formosa! É o mesmo. Porque as não puderam fazer perfumadas, fizeram-nas formosíssimas.
É agora a época das flores. Os dias de sol, lindos, dias tépidos como os de agora, fazem amar as flores, porque ¿quem as pode amar em dias londrinos, de nevoeiro e chuva? ¿Quem pode viver sem o perfume da violeta? Se não fôssem as violetas, a vida seria duma monotonia assustadora. E tão indispensável se tornam à vida que duma linda mulher sei eu que não pode viver sem elas. Quantas vezes, bocejante de tédio, neurastenizada, ela me diz parafraseando a frase célebre do filósofo alemão:—«Ah! meu amigo! Se não fôssem as violetas eu não gostaria de viver». Ao seu peito um ramo de violetas rejuvenesce eternamente. No seu toucador um frasco de violetas perfuma o ambiente e lhe perfuma a carne. À sua mesa certas são as violetas, em que os seus dentes gulosos se atufam, como nas fôlhas de rosa os dentes brancos dessa poética Madona do Campo Santo.
Depois destas flores mimadas, veem as flores modestas e as flores terríveis. Flores modestas, a papoula e o malmequer. «Mal me quer... muito... pouco... nada». Sina rudimentar, sina do acaso. Aos iludidos ela diz sempre falso: “Muito”. O tempo vem e afinal era “nada”. Como o malmequer mentiu?! O malmequer é sempre mentiroso. Se diz “muito” a gente duvida e tem sempre razão. Se diz “nada” a gente não acredita. E é por isso que falando êle sempre verdade, porque sempre diz nada, a gente o não quere nas jarras, o desfolha sem amor. Porque nós odiamos quási sempre quem nos diz a verdade sem lisonjas e sem paixões.
Nas flores terríveis temos a mancenilha. A mancenilheira é uma criatura diabólica. Persisto em corporizar as flores. A mancenilha é uma mulher, uma mulher que dá a morte. Uma daquelas mulheres que matam, sorrindo, que sorrindo arruinam, e que trazem consigo sómente a infelicidade. Nunca encontrei nenhuma mulher-mancenilheira. Eis aqui porque adoro a mancenilha, que não conheço. Porque a não conheço e porque dá a morte sorrindo.