Entre os povos civilizados, o negócio é mais demorado. Casar com ela, é a fórmula. Então dá-lhe o nome. E ela vendeu-se ou porque sim, ou por ver a sua tranquilidade assegurada, ou porque o marido tem boa posição, é deputado, ou lhe pode dar vestidos. Há tambêm uma outra moeda. Essa, chama-se Amor.
O Amor é uma bebida e uma embriaguez. São duas criaturas que se encontraram e se propozeram beber do mesmo copo. Beberam até cair. Depois a bebida começa a repugnar-lhes e adormecem. Essa repugnância chama-se Saciedade e o adormecer, Esquecimento. Quem um dia adormeceu no amor ou quando acordou está curado ou não acordou jamais.
Ora eu, amigo Tibério, não acredito no Amor, cousa em que jamais algum homem forte acreditou. O amor é uma cousa para crianças, uma teia de aranha. É preciso estar quietinho para que ela se não rompa. Depois não acredito que tu ames! ¿Pois tu, com êsse carão ignóbil de farçola, sabes lá amar? Mesmo que amar é subalternizar-se. Quem ama curva-se. Quem ama, meu caro amigo, transige. Quem ama, sim, quem ama... emfim não te aconselho a que compres mulher nenhuma com essa moeda. Sai pelos olhos da cara.
Bem. Mas suponhamos que realmente a queres comprar por êsse preço. Eu te digo: Tu que a queres, é porque a desejas. Ora não há nada tão jesuita como um desejo. (Isto é de Balzac, mas tão profundo que parece meu). Mas desejar não é tudo. É preciso paciência, uma paciência enorme, uma daquelas paciências que vulgarmente se chamam paciências de ...cordato paciente. A paciência, ou leva ao triunfo, ou à cura. Com paciência, saberás esperar. As impaciências são nefastas e tão funestas em trato de gente limpa que Acácio, conselheiro, a caminho de presidente do conselho, diz que elas são próprias da gente ordinária. Acácio é chavão, Acácio sabe disso. Nada percebe de amor, mas tem dinheiro, e quem tem dinheiro, tem tudo e mais amor.
Ora, ia dizendo! com paciência descobrirás o fraco da pretendida. Lá diz Molière: Não é bem Molière, é Castilho, mas isso não tira nem põe:
Nem o mais forte resiste
Aos que no fraco lhe dão.
Que mais queres? Meio Brummel, um quarto de Tartufo e um logar no ministério da Fazenda deve chegar. E, se não chegar, olha que sempre te digo que é caro. É pela hora da morte. «Um animal de cabelos compridos e ideias curtas» como quere Spencer!
Acredito que, não a achando em conta, a não comprarás. «Não te deixes ir atrás dos artifícios da mulher» é o palavreado bíblico, e olha que é certo como as cousas certas.
Comprar a mulher em troca dum vitelo, como se faz na Hotentócia, não acho caro.