Em troca duma tanga vermelha e quatro penas de pavão para a carapinha, ainda está bem. Dum boi, se os bois abundam, ainda não está fora da conta. Agora comprá-la pelo casamento acho caro. O casamento «é um contrato perpétuo»... por tôda a vida, bem sei, diz o código. Ora um contrato por tôda a vida, para sempre, de que um homem se não pode evadir senão morrendo, acho duro. E é comprar uma cousa que não serve para nada e de que a gente se não pode desfazer vendendo-a a terceiros.
Nada. Não te aconselho êste meio. Pelo amor, vá. Amor com uma parte de indiferença e duas de desconfiança.
Mas Tibério amigo, isso é platónico? Estarás tu apaixonado? Apaixonado! Mas isso é inacreditável num scéptico, num ironista, num desenganado, num filósofo emfim. Como os filósofos são frágeis! Como o homem é afinal e no fundo uma pena leve que o vento levanta e muda. Como você, Tibério, se deixou apaixonar.
(Aqui Tibério protestará com a veemência dum deputado da oposição e eu rejubilo por o meu amigo Tibério ainda não ter escorregado).
Bem me queria parecer! você, amar! Você o mordaz, o cínico, o que diz conhecer os homens e as mulheres!
Olhe, Tibério, quere um conselho? Os homens fortes não amam. Amar é próprio dos fracos. Tenha sempre esta máxima à cabeceira. Guerra Junqueiro disse a Mercedes Blasco que pusesse à cabeceira da cama a vida de Cristo e a vida de Buda. Pois digo-lhe que guarde à cabeceira da cama a recordação do que lhe digo. Tenha sempre presente. O amor é como o toucinho, e dêsse diz Paulo Diacre, que todo acaba por criar ranço. Ora quem começa a amar acredita lá que o seu toucinho crie ranço algum dia!?
Tibério: Meu amigo. ¿Leu você nos jornais a notícia daquele homem que se suicidou em Paris, por causa duma mulher que o deixou? ¿Leu você a história daquele que, ciumento, furou a pele doutra com uma dúzia de punhaladas? ¿Leu você a daquele outro que, por causa dEla, matou o rival com uma cacheirada no toutiço? Leu você? Ora aqui tem exemplos dos que as compraram bem caro, se é que as compraram mais do que em Ideia. Veja você se pode passar sem isso. Não compre nenhuma. Veja se alguêm lha empresta, ou se a encontra. E se emfim sempre se puser a comprá-la, compre-a por tudo menos por essa tal moeda que se chama Amor. Não se apresse. Vem no Frei Luís de Souza... «As cousas são grandes ou pequenas, segundo a medida do desejo com que se buscam...» Quanto menos as desejar mais baratas lhe aparecerão.
E que pena que Tibério já se tivesse ido embora! Era um discurso tão bonito!...