As primeiras chuvas precederam a abertura dos teatros. Do Olimpo os deuses queriam significar com isso, numa profecia risonhamente marota, que o teatro nacional continuava a pedir chuva. Continua e continuará «per omnia sæcula sæculorum», vá lá o latim do Borda dágua.

Chegou o inverno. Pôs-se à mão o impermeável, sacudiram-se do pó as galochas e... abriram os teatros.

Mas há, em Portugal teatro? Certamente. Portugal tem um teatro seu e belos dramaturgos. ¿Esquecem-se então de Gil Vicente, de António José da Silva, o «Judeu», e de Garrett, que é moda apelidar o «divino»?

Todavia o teatro em Portugal a-pesar dêsses ancestros colossais, está decadente, como o filho dum gigante que esteja a morrer tuberculoso. Disso não resta a menor dúvida. Há artigos laudatórios nos jornais, escritos pelos interessados, que dizem que nunca êle esteve tão bom. E concluem que a peça do «nosso ilustre confrade e distinto dramaturgo X» é a obra mais pujante que as gambiarras teem visto, já se sabe depois do «Frei Luís», para que o Garrett não se esquente. Mas, deixem-nos falar. É tudo mentira. O teatro em Portugal está realmente decadente. Pergunta-se: De quem a culpa? De todos. Dos autores, dos empresários, dos actores e do público. Os autores porque gágás de todo dão pecinhas insexuadas, sem vida, sem cousa nenhuma; os empresários porque, gananciosos de ofício, o que querem é explorar a beatitude do público; o público, porque, acostumado por autores e empresários, os dirigentes, a fantochadas e bambochas, prefere a tudo quanto é arte, que o educa e o faz pensar, as revistas do ano, onde há piadas grossas, tangeres e bailatas com pernas à vela e muita afrodisia, nas frases, nas coplas, no ar, e até nas pernas. Dos actores, finalmente, porque, na verdade, bem poucos teem senso artístico ou o procuram ter, e grotesquizam deplorávelmente a mais simples rábula que lhes confiem. De quem é pois a culpa? Mais do que a ninguêm aos autores e aos actores devemos atribuí-la.

Vítor Hugo disse, no prólogo dos Burgraves, (há quantos anos isso lá vai), que «o teatro deve fazer do pensamento o pão da multidão».

Assim devia ser. ¿Teem os nossos encarregues de teatro tentado cumprir a verdade da frase do vélho de Guernesey? Creio que não. Os autores são boas pessoas, isso são! (quási todos meus conhecidos! ¿pois não é isto uma aldeia onde todos nos conhecemos?) mas erraram-lhes a vocação. Fazer teatro para êles, é fazer peças mexidinhas, e prender a atenção com carpinteiragens vistosas. Quanto à orientação educativa, é inútil perguntar-lhes. Êles só conhecem os direitos de autor.

Com outros então sucede o contrário; fazem teatro por vezo peceiro, e até pagam o scenário... se necessário fôr.

Entregue o teatro a criaturas que querem fazer vida, satisfazer a vaidade, ou carpintejar simplesmente, o resultado é o que os senhores estão vendo.

Quanto aos actores, quási todos são duma lamentável ignorância. E como não são artistas, mas mercenários, é inútil procurar-lhes a menor instintividade artística. Aparte poucas excepções, que eu apontarei se quiser, são tapados como portas de catedral. O teatro em Portugal é feito, como é feito tudo: por clichés. Um cliché para os pais nobres, outro para os Scárpias, outro para os galãs, outro para os centros. Dessa repetição ininterrompida temos que a gente não vê peças, vê actores. Bem pode a criatura, esfalfar-se no tablado:—«Pois se tu eras o filho do conde de Luna...»—que logo o espectador diz da platea: «Pois sim! Bem te conheço! Tu és, mas é o Joaquim Costa!»

Sem estudos prévios do meio, sem a precisa integração no personagem, sem recursos fisionómicos, o actor toma aquilo não como uma missão elevada de elevadíssimas responsabilidades, mas como um logar que é preciso desempenhar, assim uma espécie de repartição para onde se entra logo que o pano sobe, se descansa para uma pessoa ir lá dentro, volta e torna a ir àquela parte até que o pano baixa de todo, os bombeiros revistam, o gás se apaga e cada um vai para casa cear com a mulher e com os filhos.