Como não é artista e como não estuda, não tendo portanto intensidade dramática que o agigante, que o transforme, que o complete, êle fica sempre um mastigador de palavreado ôco, porque não transfiltra alma ao que retorica, cantilena ou fanhoseia. Não acreditam? É vê-lo. Nas scenas passionais, lamecha, uma lamechice de saldo, de conquistador de criadas de servir, nas scenas scarpianas uma catadura fera e um vozeirão—que não há criança na plateia que não chore. Para que o actor mereça êste nome, é necessário que vibre; que não seja uma criatura egoismada com os meses que lhe faltam para a reforma; que tenha no estudo uma paciência sherlockolmesca, que se ensimesme, e que crie; que busque na vida real o seu modêlo e por êle se guie; na maneira de andar, de gesticular, de encolher os ombros, de ter as mãos, de escarrar. Que finalmente, é isto que se lhe exige, que faça tiranos como os antigos actores do Príncipe Real os faziam. Tão fielmente verdadeiros que os espectadores os esperavam à porta da caixa para os desancar; ou com a fidelidade com que o Tasso, ali no mesmo tablado, onde êles gaguejam, representava. E tão verdadeiramente que até uma mulher lá do alto, das varandas, bradou—abençoado seja o pão, que aquele homem ganha!
¿Para que demónio havemos de estar a utopizar? O actor em Portugal é um amanuense ou um funcionário público, de que D. Maria é a direcção geral. Se o teatro está em baixo, deixem-me dizer-lhes! se não foram êles que o estragaram, eu tambêm não fui!
No teatro o único logar compatível com a bôlsa da multidão é o galinheiro. ¿O leitor nunca foi para o galinheiro? Pois olhe que é curioso.
Uma pessoa compra o bilhete e vai para a porta duas horas antes. Logo que esta se abre, deve galgar a escada dum fôlego à frente da matula para conseguir um logarsinho donde se aviste a caixa do ponto. Emquanto o pano não sobe, os espectadores, apertados como sardinha em canastra, travam conversas e arranjam conhecimentos. Um ou outro misantropo saca um jornal da algibeira e põe-se a soletrar. Os outros conversam. Fala-se de tudo: do tempo, do João Franco, da peça que vai, dos calos e da vida: oferece-se a casa. Entretanto sobe o pano. Tiram-se os chapéus, cospe-se, tosse-se e apuram-se os ouvidos. Começa a cousa. Mas com todos os santos da côrte do céu! Não se vê nada, não se ouve nada. Esta só pelo demónio!
E aí começa uma pessoa a estender o pescoço. Estende mais, estende sempre. Aquilo já não é pescoço, é um óculo de ver ao longe, é um telescópio, a sair duma camisa. Quem olha da plateia tem a impressão de que aquilo não são criaturas. São girafas, são camelos, são só pescoços, pescoços sem fim, com dois olhos vorazes, lá no cimo, a espreitar.
Isto são os que chegaram à frente. Os retardatários, êsses, então, não vêem nem ouvem nada. Ficam cá nas últimas filas a contemplar a beleza do lustre e as pinturas do tecto. Ás vezes por milagre sempre conseguem ouvir assim uma cousa parecida com a «passagem do regimento», em monólogo, conforme o fôlego do actor. De resto, silêncio absoluto.
Na impossibilidade de ver e de ouvir e depois de ter examinado bem o lustre, o tecto, o pescoço dos da primeira fila, o porteiro e os bancos, prepara-se o espectador para um soninho descansado. Mas logo por azar, de lá, das profundezas do palco vem por ali acima um berro:—Ah tirano!—e a criatura acorda assustada julgando que é fogo. Mas não, tudo voltou ao silêncio absoluto. Lá em baixo a scena continua com estas intermitências.
Ás vezes, quando um cidadão não só dorme, mas sonha tambêm, sempre lhe ferram cada susto?! Acorda estremunhado. Palmas. Ah! É o intervalo. Os da frente principiam a recolher o pescoço. O misantropo, que não pôde apanhar logar à frente e não largou o jornalsinho, embrulha o jornal e prepara-se para ir beber dois ao «Cesteiro». «Vinum bonum lœtificat cor hominis». O bom vinho alegra o coração do homem. E o misantropo, quando volta, traz o nariz que parece uma malagueta e sempre fede!...
A scena continua, os da frente estendem outra vez o pescoço e os de trás, à cautela, forneceram-se de pevides. Sim! Porque se uma pessoa não leva pevides, está tramada!
Se o teatro está decadente, não é por falta de «dramamíferos»—dramamíferos é boa!—porque até um deles enviou uma carroça de mão, cheia de peças, com a nota de que aquilo tinha um descontozinho para revender. Agora é que o teatro ressuscita. Dramaturgo raso que há anos trazia as peças dentro dum canudo de fôlha debaixo do braço, e que não lhas representaram, por má vontade da emprêsa, já se vê, vê-as agora representadas com a sábia medida de D. Maria. Agora é que vão aparecer. Shakespeares, Maeterlincks, Ibsens e Hauptmans. Mas no fim de contas do que eu estou desconfiado é de que esta emprêsa de D. Maria tinha um avultado parasitismo dramatúrgico sôbre si, que vai agora sacudir... representando-o.