Mas a arte, onde está? Que resulta de tôda esta cousa? Vale a pena a gente ralar-se? Não. De-certo que não. Não vale a pena. Calino, que na bilheteira pedira um logar que não fôsse por debaixo do lustre, para lhe não sujar o fato algum pingo de gás, acha bem. Eu tambêm. Acho óptimo, acho tudo o que êles quiserem contanto que não me macem. Tempo é dinheiro. E, caramba! Tudo isto somado não vale a ponta dum cigarro.

Mas o remédio? Deixemo-nos disso. Nada de fantasias, que isto de gizar planos e bandarrear profecias é como as contas do sapateiro. Saem sempre furadas. Afinal é clamar no deserto:—«vox clamantis in deserto». É tal e qual. Até vem nas Escrituras.

D. João da Câmara

João da Câmara (D.), cronista do Ocidente, autor dos Vélhos e da Triste Viuvinha, acaba de partir para a grande viagem donde se não volta. E agora, a esta hora que escrevo, se regozija êle na cela do seu caixão, cela dêsse «convento, que há alêm da Morte e que se chama a Paz». Êle não voltará jamais olhar-nos por cima da luneta, contar-nos uma anedota que o seu sorriso reticenciava, nem embalar-nos com o tom serêno, religioso, espiritual, da sua conversa tão segredada e insinuante.

D. João da Câmara era ainda, neste país de bacharéis, nesta pátria de futilidades e falcatruas, uma criatura que fazia vida àparte de cotteries e de políticas, que a vida levava como Deus era servido, e que por isso mesmo se tornou simpático a gregos e troianos.

Um bon viveur com perpétuas faltas de dinheiro, que a sua falta de tino administrativo e a sua generosidade fidalga explicavam prolíxamente, sem cuidados mais fundos do amanhã e sem que o hoje fizesse à sua maneira de encarar a vida descalabro grande; não havendo agiota que o não sugasse para não haver desventurado que, dentro do seu âmbito generoso e monetário, êle não protegesse; um boémio em tudo, se por boémio tivermos um abandono de horas, de convenções, de regularidades. Eis o que êle foi. Criatura sempre camarada, sempre amiga, sempre fidalga, não murmurando nunca dos outros, nada aziumeira e biliosa, sincera sempre no seu auxílio, a ponto de lhe forçarem a boa fé sem que tivesse desdens, a ponto de o intrujarem, sem que tivesse rancores, eis aqui como o conheci e a lembrança que conservo dele, o primeiro consagrado com quem me dei, se consagrado se pode chamar o que chegou primeiro e tem mais largos horizontes de protecção e crédito nominal, que nem outro crédito o escritor disfruta em Portugal.

A nossa camaradagem, e falo dela com orgulho, foi sempre boa, serêna, plácida. E dele três lembranças há, que mais fixativamente se me gravaram na memória. A da estatueta do escultor Silva Gouveia, uma flagrância bem natural, e a da penúltima vez que o encontrei, fazendo a ascenção penosa, uma ascenção asfixiante, da escada das Novidades, então no Largo das Duas Egrejas. Essa impressão é a mais viva. Uma impressão de ruína, de acabamento. Da última vez que o vi, foi na estreia das Rosas de todo o anno, do nosso Júlio Dantas, no palco de D. Amélia. Nunca mais o tornei a ver. Agora outra impressão me ficou: a do seu entêrro, em que se fizeram discursos que deviam ser proibidos, por convencionais, literaticos ou desageitados, e onde em tôdas as fisionomias vi a mágua sincera da sua perda, a ponto de grandemente me apoquentar a cara contristada, sofredora, de Lopes de Mendonça, outra criatura sincera e afectiva, e a de Eduardo Schwalbach, que nada tinha, nada, do seu mefistofelismo habitual.


Quanto à obra pública do escritor, outra é a minha opinião. Eu não creio que João da Câmara tivesse feito uma obra grande. Que fizesse uma obra sua não duvido, porque tôda ela é desigual, ressentindo-se das ocasiões em que a trabalhou, das circunstâncias em que a fabulou o espírito, e das impressões ou necessidades que a fizeram trasladar ao papel. Nem plano, nem harmonia, nem concatenação filosófica que a atravesse, nem fim a que se destine. Ela não é mais do que o espelho dum espírito cheio de lirismo, romântico por falta de leituras novas, sem concepção do mundo e dos outros e ainda o que é mais, sem que seja outra cousa do que produto duma travessia desordenada e fugitiva pelas regiões do sonho.