O livro póstumo ora publicado—A Cidade—é mais do que medíocre. São poesias soltas, cantando cousas banais, em versos banais, porque não foi, esta pobre alma de poeta, nunca uma alma tragediadora que sentisse a vida e as cousas com nervos de quem sente apressadamente. Natureza mole, um quási nada enxundiosa, a vida representou-se-lhe sempre como uma cousa calma e pacificada, demais tendo, como êle tinha, porque era um bom, o defeito de acreditar na bondade alheia. Assim, o seu lirismo são versinhos sem nexo à falta de idea que os vibre, e deixam-nos no espírito a impressão de que lhes deu forma uma criatura afeminada e criada entre armures e cousas fôfas. A cidade que o poeta viu é uma cidade banal, de lirismos contumazes de poeta principiante e água morna. Quanto à obra restante, bom será que a turba jornaleira, que não soube fazer um artigo digno e deu à jolda informatriz o encargo de dizer do passamento do malaventurado homem de letras, se não escagarrinhe de entusiasmo por peças que nunca viu representar, nem livros que jamais leu. E bom será, para que não venha provocar palavras de justiça quando são necessárias palavras de saudade. Babuje embora os seus pobres louvores, sem forma e sem gramática, a sua sermonada do costume em entêrro de conselheiros, mas não queira exercer, judicatura em cousas para que ninguêm lhe deu fôro. E que os mortos não sirvam, pobres mortos! para que um nome que não lhes serviu a êles, nos agiotas, sem fiador, venha levantar celeumas justiceiras e tornar-se ferrete ignominioso duma profissão.

Curioso é, como, tendo morrido o pobre D. João, há bem pouco tempo, já os jornais andam afervilhados para que a família do escritor não fique na miséria. E vá de explorar essa miséria fazendo jus a uma pensãosinha, pondo demais à cabeça do rol a encobrir, justificar e pôr o visto, o nome de Fialho de Almeida, sob títulos de que Fialho num artigo frisava o estado precário do poeta.

Há por certo engano. Os senhores estão enganados. Fialho não frisou o estado de miséria em que viveu D. João. O que Fialho fêz foi frisar o estado de miséria em que chafurdam os nossos intelectuais. Generalizou, não falou de D. João em especial. A miséria dos nossos intelectuais, se miséria se pode chamar um máu passadio, de horizonte limitado, em tudo é já sabida. É até uma tristeza mecher-se nisso.

Mas os jornais não param. Pretendem para a família de D. João uma pensão.

Ora, começa aqui o amargo. A família de D. João não a merece. Porquê? Porque não. Ficam escondidas várias razões que virão, se fôr preciso. Não a merece, como a não merecia a família de João de Deus e como a não merece a família do Eça.

A obra de D. João não é uma obra nacional ou com foros disso. O Estado pagou ao escritor como funcionário público. O Conservatório como professor.

Nada tem o país que ver com o resto.

Mas se os jornais querem dar uma pensão à família do escritor, que se reunam êles, as empresas teatrais, as casas editoriais, os agiotas e terceiros, para fazer a restituição de tudo quanto em vida lhe roubaram.

Pensão do Estado não pode ser. E não pode ser, porque o Estado é pobre e porque basta de precedentes. Eram 800$000 réis, não eram? Pois reclamem, reclamem êsses oitocentos mil réis para escolas, para que amanhã o povo dê ao escritor mais mil ou dois mil leitores. O Estado é pobre, o Estado não pode dar pensões a ninguêm, quando ha milhões de analfabetos. O Estado não pode ter parasitas, quando tem dívidas. Que dê pensão aos netos de Camilo, vá. Mas que as dê a todo o que se permitiu gastar o pouco que ganhou, sem nenhum interêsse para a arte nacional, é que não. Amanhã virão todos os que literatejaram e conseguiram nome reclamar. Virá... eu não digo os que virão. É melhor estar calado. Até eu, quando morrer, deixarei à família o requerimento.

Mas para que demónio nos obrigam a falar nestas cousas!?