Arte de Reinar
Senhor:
«Hum sabio disse que não havia n’este mundo homem que se conhecesse; porque todos para comsigo são como os olhos, que, vendo tudo, não se vêem a si mesmos; e d’aqui vem não darem muita fé nem de suas perfeiçoens, nem advertirem em seus defeitos; e ser necessário que outrem lhes diga o que passa na verdade. Se V. Magestade não se conhece, nem o mundo em que vive, e de que he Senhor, eu o direy em breves palavras».
O autor anónimo da Arte de Furtar começa assim o seu prólogo em palavras de ontem que parecem de hoje. Começa assim e não vai mal. Eu, porêm, não começarei assim. Chama-se esta crónica Arte de Reinar ou, para melhor, Da Arte de Reinar. Há várias crónicas e várias artes. Desde a Arte de cavalgar a tôda a sela, do mui erudito senhor e sábio eloqùente D. Duarte, que Deus, ou lá quem é, haja em sua santa guarda; desde a Arte da guerra do mar, de mestre licenciado Fernão de Oliveira, que a eternidade em sua santa glória haja; desde a Arte de Furtar, que as más línguas atribuem ao reverendo Vieira, até ao livro que se lhe contrapõe Arte de los estafadores, que traz trezentas ou quatrocentas maneiras de os evitar, como se os estafadores não tivessem ainda oitocentos golpes para as inutilizar; desde as artes, emfim, de Pedro das malas ditas até ao Livro ou Arte de ensinança dos principes, que quantidade de artes! Esta, de que hoje se trata, é a arte de reinar. Reinar não é assim uma arte muito fácil. É mesmo mais difícil do que o que parece. É mesmo muito difícil reinar nos tempos que vão correndo.
Para reinar, três predicados se exigem: Que o reinante seja um filósofo, isto é, que conheça os homens; que seja um scéptico, isto é, que não acredite na felicidade; que seja justiceiro, para que o que é de Cesar não vá parar a Paulo e para que Paulo não berre que Cesar lhe empolgou o seu quinhão. Ora, para V. Magestade ser um filósofo e conhecer os homens, não tem mais do que abrir a sua Arte de Furtar—se não tem, empresto-lhe!—no prólogo supra mencionado. Lá diz: «este mundo he hum covil de ladroens», e olhe V. Magestade que é verdade. Isto não é um vale de Lágrimas, é um vale de patifes. Cerque-se V. Magestade de homens honrados, mas não deixe de fazer como o esclarecido D. Luís, vosso augusto avô, fazia às caixas de charutos que tinha para consumo particular: pôr sob a tampa de cada uma, uma caixa de música, de maneira que por cada charuto surripiado ouça ao menos o intermezzo da Cavalleria, o intróito dos Palhaços ou o La donna é mobile do Rigoleto.
Não ouça V. Magestade mais do que o conselho do seu conselho, que é como quem diz a reflexão do seu juízo. Acredito que sejam todos muito honrados, mas bom será sempre conferir as colheres de prata. Se V. Magestade achar que a Arte de Furtar é pouco, leia Schopenhauer, um má língua sem precedentes, e o mais que a experiência lhe aconselhar. Ouça os conselheiros... Eu conto uma história a propósito de conselheiros. Li-a em um volume de José de Magalhães, escritor que deve ler, demais a mais colaborador da Luta, e vou dizer-lha dum fôlego: «Um dia que Çakia-Muni, príncipe jovem e feliz, a quem tinham ocultado as doenças, a velhice e a morte, saía com um séquito numeroso pela porta oriental da cidade, para se dirigir ao jardim de recreio de Lumbini, encontrou no seu caminho um vélho desdentado, decrépito e coberto de rugas, articulando com dificuldade sons desagradáveis. O príncipe, admirado, pergunta porque chegou aquele homem a tal estado. Em resposta consegue saber que todos os homens chegarão a estado semelhante, salvo se a Morte misericordiosa os tomar. Desconhecia o príncipe tambêm o que era a Morte. Mas doutra vez que saía a passeio topou no seu caminho um esquife em que levavam um homem que já nem respirava, nem pensava, nem gemia. Já não conhecia o sofrimento e poderia Çakia-Muni passar por êle cem vezes, que o vassalo submisso, dedicado e reverente, nem uma vez se ergueria para o saudar. Tambêm o príncipe não conhecia que cousa fôsse doença, quando o encontro dum vélho ulceroso, chaguento e miserável lhe veio patentear mais uma miséria a que estamos sujeitos, a que todos os homens se sujeitam, e a que mesmo réis ou príncipes, imperadores ou párias, se não podem furtar.
Foi então que Çakia-Muni deliberou não ouvir mais os seus conselheiros e considerar. E fêz bem. Fêz muito bem. Por ter ouvido demais os conselheiros é que aquele outro rei veio em fralda para a rua. Todos os conselheiros diziam que êle estava vestido com um estôfo maravilhoso, e tantas vezes lho disseram que êle acabou por acreditar. Exactamente como aquele Marques a quem tantas vezes chamaram Marquez, que êle acabou por se julgar assim. Foi preciso um garôto, um garôto insurreccionado, atrevido, irreverente, encarrapitado numa árvore, berrar lá de cima «O rei vai em fralda!» para que êle caísse em si e corresse aquela choldra dos conselheiros. Se algum dia os conselheiros disserem a V. Magestade que mais isto e mais aquilo, V. Magestade duvide sempre. Duvidar não fica mal aos mortais, embora êsse mortal seja um rei.
Para reinar bem, é preciso ser sábio, ser prudente, ser justiceiro, recto e generoso. É muito para um homem só, mas com um pouco de boa vontade tudo se consegue. Ser sábio ainda é o menos. E por essa história fora há tanto bom rei de letras gordas... Ser prudente e ser justiceiro são qualidades indispensáveis. Prudente como a Prudência e justiceiro como Salomão. Assim se governa a contento dos governados e os governados se contentam com quem os governa. Já se dizia isto no tempo de Gôngora, em que parece escrito, pelo trocadilho.
Para bem reinar é preciso conhecer os homens. Para conhecer os homens é preciso ou ser filósofo ou ter sofrido. E, que demónio! não é difícil ser um bocado filósofo e sofrer o bocado que lhe falta.