Mas reinar é uma cousa e falar é outra. Os que falam mais não são os que melhor governam, nem os que mais prometem que melhor cumprem. Reinar é uma cousa difícil. Isto já se dizia há séculos em vélhos livros poeirentos e vernáculos. Vernáculo e poeirento é quási sinónimo, nestes tempos em que vélhos e novos «galicismam e escabeceiam».

E visto que o ofício é governar, nada de montarias. Ainda que os conselheiros de hoje são cortezãos de cheviote vulgar e não diriam nunca «Senão...», aquele senão histórico que vem nas crónicas e de que a história reza, com prólogos de muito louvor.

Eis pois os tópicos essenciais da arte de reinar, complexa arte de que profanos não percebem. Ser rei é bonito, mas não é lá muito bom ofício. Não sei mesmo o que êles pensam a respeito da sua ocupação. E curioso seria reunir as opiniões de cada um deles sôbre o emprêgo que lhes deram. Consultar o Kaiser, êsse Guilherme II da Alemanha e dos bigodes, o Cleopoldo da Cléo, o rei de Espanha, o de Itália, o da Grécia, os de tôdas essa terras. Inquérito lembrado a uma revista que explore a especialidade.

E já que falei em reis, em reinos e em reinados, aí vai uma anedota que, se não fôr verdadeira, nem por isso deixa de ter bastante filosofia:

«A um rei pediu uma ocasião um frade que lhe desse quarenta moedas para comprar uma mula. Respondeu o rei que não tinha, ao que o frade objectou: «Falai baixo, meu senhor, porque se essa gente—e indicava a turba dos cortezãos—sabe que V. Magestade não possui quarenta moedas para comprar uma mula, nem um deles deixará de se ir embora».

Religiões

As religiões, ia você dizendo?!... E como o filósofo erguesse o focinho em ponto de interrogação, eu volvi solene: «Sim, amigo Tibério: Essa cousa de religiões é uma cantiga. Positivamente uma cantiga. De resto, não me julgue você ateu ou pedreiro livre. É certo que não vou à missa, não sei o padre-nosso, não trago sermões, nem sou papa-hóstias. Isso não. Mas tambêm não faço bolas de sabão, nem deito papagaios, nem quero saber da vida alheia. Ora daqui a ateu, amigo Tibério, que diferença?! E você, se duvida, escute: Eu acredito que, quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que o paga. Emquanto a religiões, dir-lhe-hei, muito à puridade, que acredito. Acredito e como é sempre bom estar bem com Deus e com Satanaz, tenho para meu uso uma data de deuses. A todos respeito, tiro o chapéu a todos, se êles me estendem a mão não lhes recuso a minha, se os encontro, inquiro solícito como vão lá pelo céu a mulher e a pequenada—isto aos deuses casados; aos outros pergunto-lhes que tal vão da figadeira, se passaram bem a noite, emfim, cuidados de gente bem educada.

Assim, como trato bem a todos, êles vão-me deixando viver tambêm, na paz do Senhor.

Respeito o urso, o deus dos siberianos, mas não lhe estendo a mão. Respeito as serpentes, como os africanos, mas não me chego muito. E para ser um bocadinho descrente, valha a verdade que não acredito muito que seja grande fortuna ser morto por um leopardo, como acreditam os nossos irmãos do Dahomé.