A dôr só embota as criaturas rudes. Ás outras estimula-as. Assim, Goron, sob a sua farda de polícia, tem um coração piedoso e sob os olhos inquisitoriais e pesquisantes de perseguidor há muitas vezes lágrimas reprêsas. ¿Porque abandonou êle o cargo? Não sei. Talvez farto de tanta dôr. O espectáculo da dôr contínua, que é hábito para os rudes, para certas criaturas é um suplício. Goron é uma criatura sensível, uma alma de artista apaixonado e sonhador. E quem tal diria? Sonhador, nem menos! Ah! Não julgueis nunca os homens pelas aparências. ¿O que lá está dentro quem no sabe? E creio-o; jamais alguêm o saberá!

A obra de Goron é o mais profundo estudo de bas-fonds que conheço. E olhai que muitos há. Tenho aqui à mão o Paris impur de Charles Virmaitre e os livros de L. Taxil.

Não só profundo êle é. Há muita poesia naquelas descrições e muita arte nesses relatos. Mão cariciosa cinzelou aquela prosa desprendida que não sei que encanto tem.

Dir-me-hão que uma cidade como Paris e um cargo como o de chefe dão para óptimos livros de memórias. De acôrdo. Mas é necessário ser-se artista e necessário saber ver fora da visão profissional. E Goron soube ver.


«Sinto-me morrer longe de ti; tenho um desejo louco de abraçar-te.

«Quero ver-te a todo o custo e quando saia quero que me ames como sempre, que jamais, jamais, sejas doutra mulher. Prefiro ver-te morto que perjuro ao nosso amor, e se me abandonas matar-te-hei!...

«Pensa em mim tôdas as noites, na tua cela, como eu penso em ti, rogando a Deus que nos reúna breve, ainda que seja na Nova...» (Nova-Caledónia, a penitenciária).

Assim escrevia uma mulher pública a um ladrão. Ambos presos. Ela escrevia de Saint Lazare.

E são cartas, confissões, ódios, vinganças, paixões, tôda a gama de humanos sentimentos que ali ruge, e passa em tropel.