Quási poeta nas Novas Confissões, Sherlock-Holmes no Através do Crime, Goron é um apaixonado e um artista. A sua obra é proveitosíssima e lê-se com verdadeiro interêsse.
Quem ainda crê no amor, que se sacie. Tem ali o amor em tôda a sua nudez. Quem crê na sinceridade e não se acostumou a ver o homem como um animal que inventou as luvas para esconder as garras, tambêm ali tem que aprender. E certo é que todos, lendo-a, andarão mais algumas horas na intimidade da alma humana.
Por suas relações, por sua larga experiência—Goron é um cavalheiro edoso—pela larguíssima racolta de documentos vívidos e do natural colhidos, flagrantes ainda e ainda conservando tôda a sua intensidade, mereceram as Memórias o sucesso europeu que desfrutam. Acolhidas com ensurdecedor murmúrio à data da sua publicação—que arquivo de graves cousas, cousas comprometedoras, cousas pícaras, nojentas e terríveis, surdiria?!—elas foram tambêm logo festejadas. É que as Memórias de Goron não eram obra para armar à popularidade, cativando por suas escandalosas revelações, e rocambolizando a meada profissional. Não eram. As Memórias eram sómente isto: o trabalho dum artista, dum homem que sentiu a vida e que vem das regiões misteriosas do crime, dos abismos profundos do vício, relatar-nos o que viu em linguagem comovida.
Falhando pois à ansiosa popularidade do escândalo, a obra de Goron não teve o êxito passageiro das que o teem. Antes continua a ser lida, lida será e sempre com amor. É o estudo dum homem que viu. E só quem viu merece ser acreditado.
Goron, antes de ser agente, era um artista. Quando deixou de ser agente, artista ficou. E pelo contrário: a sua convivência com gente humilde, a sua excursão por essas desconhecidas paragens, deram-nos um documento que será lido emquanto bater um coração e não secar de todo essa solitária flor da piedade.
E porque a sua obra me faz sentir, sentir intensamente, é que eu considero Goron um grande artista.
Mercedes Blasco
(A propósito do seu livro «Memórias duma actriz»)
Antes, muito antes mesmo, de ter lido as Memórias, já pensara da sua autora o que Vítor Hugo escreveu de Cláudio Frollo: «¿Que fogo interior é êsse que por vezes lhe brilha nos olhos, a ponto de se assimilharem a uns buracos feitos na parede duma fornalha?» ¿Que brilho mau trazem êsses olhos, que pesa como o coturno dos gladiadores que vencem? Mas foi um pensamento só. Não psicologizei do brilho nem do fogo. Já Plínio, o antigo, no ano 79 de Cristo, morrera no Vesúvio vítima da sua lamentável curiosidade...