Juízo do ano
O ano que começou ontem será um ano igual aos outros. Igual, sem tirar nem pôr. Haverá nele, como já houve o ano passado, como houve em todos os anos que passaram e como haverá em todos os anos que vierem, tolos que enriquecem e tolos que cavam pés de burro, asnos que se suicidam e asnos que acham isto uma cousa óptima. Continuará a haver uma ignorância formidável da multidão dominada e uma patifaria criminosa da minoria dominante; continuará a haver homens cavalos e homens cavaleiros; sábios que são burros e burros que são sábios; muita maldade nas mulheres—a maldade nas mulheres é um pleonasmo!—e muita estultícia nos homens. Haverá côres para todos os gostos, acepipes para todos os paladares e partidos para todos os cidadãos. Não sucederá nada de novo, porque nada é novo debaixo do sol, diz a voz grave do vélho Eclesiastes, um mágico que sabia muito mais da patifaria humana do que o snr. Civinini das mulheres que usam bigode e pêra.
O novo ano será um ano feliz para quem jogar e lhe sair «el prémio gordo». Para os que joguem e lhes sair branco será um ano de azar.
Quem trabucar, manduca, a não ser que perca o apetite. Quanto ao resto, o que êste ano será, é fácil de adivinhar.
Para os tolos, uma felicidade, porque êsses banabóias são felizes todos os dias; para os que não sejam, nem eu mesmo sei.
Quanto ao ano artístico, será deplorável, porque o que terá menos é arte, e de artistas nem sombra. Haverá vários quadros assinados por estes e aqueles fulanos. Se é paisagem, já sabemos o que é: «Macieira em flor», «Um trecho da Tapada» ou a «Ribeira de Algés». Se é retrato, um cavalheiro ou uma cavalheira de cara lambuza e desconfiada, olhos de goraz do vapor, ou então um ar bonacho de quem diz à gente: «Então que tal? como passou? estou catita, heim?»
Em arquitectura, continuarão a aparecer projectos... do Palácio da Justiça, de várias saladas de cal e areia para projecto ou para habitar, e de «artes várias».
Os nossos escultores continuarão fazendo Senhoras da Conceição, cruzes para jazigos, e «muchas cosas más» dum «salero» infinito.
Das finanças: «finanças se chamam as rendas públicas quando Portugal está a finar-se». É de Camilo o dito. Das finanças dizia eu... mas em finanças não sou muito forte. Adiante.