O ano literário... Continuará a haver literatura, literatos vulgares de Linneu, literatos abezelgados e chués, porque, irmãos caríssimos, «todo o homem tem em si uma porção de inépcia, que há de sair em prosa ou verso, em palavras ou obras, como o carnicão dum furúnculo». Homens de génio não haverá, mas em compensação abundosos se prognostica os homens de génio mau ou de bom génio, porque cada um é como o pai o fêz. A crítica continuará a ser como foi sempre: De mostarda, de manteiga, e de àgua e sal.

E, tenho dito.

Quanto a ti, leitor molesto, eu não tiro o teu horóscopo nem te leio as ruins tenções de que porventura estejas cheio. Mas é sempre bom conversar, uma conversa de amigos vélhos e inseparáveis. Não sei se és rico, se pobre, se alto, se baixo. Se rico, guarda a bôlsa que não preciso dela; se pobre, tem paciência porque não te posso valer.

Dito isto, em verdade te digo que tens um ano diante de ti. Emprega-o bem. Lê a vida do bom homem Ricardo, regula as tuas digestões, não tenhas excessos e deita-te cedo. A isto se chama em bom português fazer pela vida.

Faze pois pela vida. Lembra-te que «os mortos caem fácilmente no olvido», como dizia Bürger na balada de Leonora, traduzida por êsse tristonho Gerard de Nerval que se enforcou num candieiro da Rue Vieille-Lanterne, numa manhã gelada de janeiro em que um corvo, que parecia fugido ao «Never more!» de Poe, lhe crocitava satânico e lúgubre a sua elegia de tímido, de sonhador e de incompreendido. ¿E quem hoje, no aniversário da sua morte, se lembra dêsse pobre Gerard, que trazia sempre os bolsos cheios de livros, como o Schaunard da Bohème, que traduziu Goethe e visitou o Oriente? Ah! é bem certo que «os mortos caem fácilmente no olvido!»

Faze por ter dinheiro. O Dinheiro, alêm de ser tudo o que tu sabes, é ainda aquilo com que se compram os melões. Se o tiveres não o emprestes nem o dês. Se precisares não peças, porque ninguêm te vale. Gritar é inútil tambêm, para que não chames curiosos à tua desventura.

Prefere «um pássaro na mão a dois voando» e não te fies na Virgem. Porque se te fias na Virgem e não corres não tarda o fatal e bem merecido pontapé.

Se és casado não leves amigos a casa. Isto não é para que te ofendas, é por uma cousa que eu cá sei. Se tens filhos, ao menos um filho só, que é cousa que tôda a gente tem, seu ou alheio, faz do teu filho um homem forte. Bom estômago, bons nervos, bons músculos. Antes o obrigues à frequência do mestre Raku, um sujeito que ganha a vida a deitar os outros ao chão, do que à de Félix Pereira, que lhe ensina que meter os dedos no nariz é porcaria. É preferível ser forte a ser bem-criado. É mesmo preferível ter fôrça a ter direito, «porque se vai mais longe com a mão cheia de fôrça do que com um saco cheio de direito», ensina a experiência dos homens e a sabedoria das nações.

Podes ensinar-lhe muitas mais cousas que tu saibas. Não o queiras nem artista, nem literato, nem jornalista. Vê se o podes fazer par do reino, que o pariato é uma cousa que se está dando ou se vai dar a tôda a gente, exactamente como o hábito de Cristo ou de S. Tiago. «Dizem que até há barbeiros...» como já o suspeitava o Baptista dos Maias. Se o fizeres par, porque êle não tenha geiteira para outra cousa, recomenda-lhe que se cale. «O silêncio é de ouro» e um tolo calado, conquanto não deixe de ser tolo, passa por homem sisudo. Porque se êle assim não fôr, tanto pior para êle. Os que assim não são, nada teem a esperar do ano novo. São e serão sempre escarnecidos, ridículos e pobres. E o pior mal dum homem é ser pobre. Ninguêm lhe vale. Ser pobre é...

Não continuo porque um cavalheiro que está vendo o que eu escrevo, refila, em ar de resposta: