—«Mas há a Caridade. A Caridade, homem!»
—«A Caridade? Ah! sim.»—As misérias do próximo comovem muito a caridade de cada um. E eu, que tambêm me vou tornando azêdo como o senhor Silva Pinto, resmunguei e recordei-me. Devia ser uma caridade como a daquele barão da Falperra que o nosso Alfredo Mesquita conheceu: Um homem tão caridoso que, depois de ter ouvido um pobre contar-lhe as suas misérias, a ponto de o fazer chorar, chamava sempre o criado e, com a voz entrecortada de soluços, ordenava:—«João, ponha êsse homem no ôlho da rua; parte-se-me o coração de o ouvir...»
E para os que lhe dissessem que êle lhe não dera nada, retorquia, que sim, que dera. Dera-lhe... atenção.
E estava certo, como diz ainda o senhor Silva Pinto.
Artistas
A morte recente dêsse desventurado Augusto Santo, escultor do Pôrto, veio avocar com amarga intensidade a malfadada sorte que está guardada a todos que teem a suprema desventura de ter nascido artistas em Portugal. Augusto Santo foi discípulo de Falguière, de Rodin e de Soares dos Reis. Ouviu as lições de Taine, e expôs no Salon. Era quási um desconhecido e morreu na maior miséria, num catre humilde de hospital.
Ser desconhecido em Portugal é um caso banalíssimo. Herculano, e êsse Garrett que «num dia de apuro por cem ou duzentas moedas seria capaz de tôdas as porcarias menos de pôr num papel a trôco de todo o ouro do mundo uma linha mal escrita» são, ainda que isto pareça um paradoxo, quási desconhecidos. O grande público não tem ideia dêles e ainda hoje uma das suas edições leva uma eternidade para se esgotar.
A indiferença do público pelos artistas é absoluta, e não vai longe ainda o tempo em que literato era sinónimo de vadio. Camilo no Pôrto, ao tempo, era sómente um janota que para ali quebrava esquinas, um tal que não avezava com que mandar cantar um cego. Quando, pelos romances, ganhava com que forrar de cuidados o passadio de dois meses, não se imagina o escândalo que aquilo produzia nos Antónios Josés da Silva e na rua das Congostas. O Pôrto de então tinha ideias seguras e via as cousas como devia ver. Literatos neste país?! hum! e torcia o nariz como quem dizia que aquilo não era prático, nem por aquele caminho se chegava a ter um rolosito de inscrições, um prédiosito, ou uma velhice sossegada. Era a vida prática, o balcão é que era o caminho. Por isso, quando Camilo, já no apogeu de glória, em cartas duma dolorosa humildade, quási esmolava, para comer, a compra de pratas que os seus admiradores lhe ofereciam, o Pôrto mui devia rir. Êle bem lhe dizia! Não era aquele o caminho...
A Soares dos Réis para lhe fazerem justiça foi preciso que a morte o tomasse. Em vida foi um obscuro obreiro sem amigos, ou quási, e teve uma existência bastante precária. Basta dizer que em tôda a sua vida de trabalho não conseguiu mais do que 4:764$500 réis segundo a autobiografia do artista, que o snr. Joaquim de Vasconcelos, em 1905, confidenciou ao público por intermédio da Revista. Para ganhar essa importância confessa Soares dos Réis que esteve «algumas vezes em relação com a arte industrial». Mesmo assim quem a achar exagerada deduza-lhe o custo do material e de auxiliares indispensáveis e verá quanto fica. O Artista na Infância vendeu-o por 600$000 réis e foi o máximo preço que levou por uma obra sua, se exceptuarmos, é claro, o monumento ao Conde de Ferreira.