Em vida ninguêm o auxiliou, ninguêm o encorajou para prosseguir. Muito ao contrário perseguiam-no, sitiavam-no, roubavam-no, fechavam-lhe tôdas as portas com intrigas soezes, com indróminas de sabidos e ronha de marotos. Concurso a que fôsse, vaga a que concorresse, plano que tentasse viabilizar, certo era a mediocridade arranjista, por portas travessas, frustrar-lhe tôda a ambição e todo o Sonho.
Emquanto o homem viveu não puderam os amigos, êsses amigos do diabo, atormentá-lo mais, nem mais o perseguirem. Depois de morto não houve lamúria que não chorassem e não houve adjectivo sonoroso e amelaçado que a criatura não tivesse. A justiça chega sempre depois da morte, é certo, mas pela injustiça dos vivos.
Com Augusto Santo o caso é o mesmo. Augusto Santo era, antes de tudo, um impersistente. Não possuía a tenacidade avara, fria e reservada, a confiança absoluta dêsses brocadores do Ideal, fadados para o êxito. A menor contrariedade o exasperava. E como se não fôsse bastante a execução perra, o sonho nebuloso, a vida material e a falta de tudo, ainda a minar-lhe a existência a agressividade constante dos outros,—os colegas os primeiros,—não fôsse o pobre diabo roubar-lhes a glória, e numa avidez de faminto a guardasse tôda para si. Augusto Santo foi um perseguido desde que expôs êsse Ismael, a sua única obra a valer, mas ainda assim uma promessa do que o seu temperamento de artista poderia dar.
Como vêem, eu não quero dizer que Augusto Santo era um génio e que a sua morte abre uma clareira formidável entre os Teixeiras e os Lopes da pedra portuguesa. Não. Augusto Santo não deixou fauteuil vago. O que eu quero precisar é que era Augusto Santo um artista a valer, que noutro meio floresceria, um meio que lhe não fôsse hostil como o seu,—tão hostil que até o deixou morrer de fome numa enxêrga de hospital. Com esta hostilidade e com esta ingratidão a arte perdeu, mas ganharam os escultores portugueses. Podem agora catrapiscar a imortalidade à vontadinha, que ela não esperará que êles morram para vir, ou o seu cão, sevandijar-lhes em cima da obra.
Alguns gazeteiros ou gazetíferos, com as palavras de louvor do cliché, justificam porque Augusto Santo não teve carruagem às horas, mesa lauta e colchão fôfo. Foi, dizem êles reprimendando os restos do escultor, porque era um inadaptado, porque desprezou sempre a arte de engorda, a que dá lucros e considerações, e preferiu correr atrás dum sonho que o exauria e que o matava, um sonho de arte irrealisável e irrealisado, arte verdadeira que não tem preço, embora às vezes se venda, e que não se compra, embora às vezes se adquira. E com um desdêm olímpico, absoluto, ditatorial, chamam-lhe... sonhador. Sonhador!... como se isto fôsse o sumo desprêzo ou a máxima compaixão. Deve ser bem triste morrer, assim!
Ao menos se essa turba se calasse e governasse vida, vá; mas vir babujar a sua irresponsabilidade desvergonhada no momento em que o pobre vencido solavancava a caminho do cemitério, é intolerável. Não se justifique, que ninguêm lhe tira o ganho: ela tem a sua utilidade. ¿Quem é que nos havia afinal de fazer os fretes?
Augusto Santo, não reste dúvida, foi um atormentado da forma. Quando a concepção, megalomania conceptiva era nele, lhe fabulava maravilhas, logo o barro, parece que conluiado com os homens, debaixo dos gadanhos convulsos e nervosos tinha formas brutais, aduncas e agressivas. E a sua frialdade viscosa logo ali abafava o delírio artístico do pobre impotente e lhe dava crises de desânimo capazes de vergar um atleta.
Todo o Pôrto cabareteiro e intelectual conhecia estas torturas do artista. Sem fôrças para opôr uma resistência, êle consumia-se em desolações. Cada tentativa malograda deixava-o mais exausto de fôrças do que uma noite perdida a caminhar. O Sonho vampirizava-o e exigia-lhe uma impossível produção de calorias. Todavia nada resta dele, decorrendo como decorreu intramuralhas do seu crânio. Após a criação dêsse Ismael, que noutro meio mais acarinhante, se o não celebrizasse, o evidenciaria, Augusto Santo criara, para si mesmo, responsabilidades. Ficaram por cumprir. A quantos artistas não sucede outro tanto?! Todos o sabem, Portugal artísticamente é um país morto. Capaz duma ressurreição? Certamente. Desde que os poderes públicos olhem com atenção para a Arte, desde que a percentagem assustadora dos analfabetos diminua e desde que o público manifeste interêsse por estas cousas. Arte em Portugal? Os pintores é que sabem o que isso é. Êles bem vêem que não é de sonhos e de belos quadros que se vive. O que dá são as lições, que é como quem diz os quadros que fazem e os discípulos assinam. É uma arte de opereta, de muito riso, com sinfonias de Offenbach e de que só vai mal a quem a toma a sério. Êsses são os vencidos, os Soares dos Réis e os Augustos Santos.
Ê pois mais um artista que sucumbiu em luta inglória com o Destino. Consagrado ou desconhecido, não há dúvida que era um artista. O Ismael o atesta. E já que ninguêm teve que o auxiliasse e que no meio da indiferença geral da gente que escreve e do regosijo da gente que escultura, êle deixou a vida, justo é que eu o admire, ao seu exemplo de intransigência, à luta que sustentou e à tragédia da vida que sofreu. E ninguêm se lembrou dele senão a Morte, que se amerceou de tanto sofrimento. Ó morte remediadora e sacratíssima, amiga dos pobres, remidora dos desventurados e consoladora dos aflitos, eu te bemdigo.