Teófilo Gauthier, o Benvenuto Cellini da prosa francesa, segundo Camilo, consagrou um dos seus volumes à Jettatura, ou mau olhado, condão funesto do Jettatore. Nesse volume, obra prima do lapidário precioso a quem já Baudelaire havia chamado «poeta impecável, mago e mestre», se romantiza a vida dum jettatore e se dá conta de todos os malefícios que o seu olhar causou. Paulo d’Aspremont, francês, é o protagonista do romance, e, sem o saber, possui o fascino, que, traduzido em vulgar, significa mau olhado. O seu olhar fatal onde pousa é nefasto. A pata do cavalo de Attila não teve tanta crueldade. Se se debruça na amurada dum barco, para olhar a água mansa e tranqùila, logo o mar se encapela e enfuría; se entra num teatro e fita um actor que ri, logo o espectáculo se interrompe e a própria Troça fica séria; se olha uma bailarina que rodopia, um bico de gás incendeia a gaze e a bailarina morre. Quando fita a sua própria noiva, o pobre jettatore mata-a. Uma roseta escarlate assoma às faces da condenada inglêsa, um escarro de sangue vem da goela à bôca, e dali à morte é um ai. Nápoles inteiro o odeia. «Tôdas as vezes que parava junto duma loja, o dono parecia assustado, murmurava algumas imprecações a meia voz, e alongava os dedos como se quisesse apunhalá-lo com o auricular e o índex; as vendedeiras mais ousadas, acabrunhavam-o de impropérios e mostravam-lhe o punho.» Por fim cega-se e suicida-se, arremessando-se ao mar. O seu corpo nunca se encontrou. Quando êle morreu,—oh meu adorável Gauthier!—quando êle morreu «a tempestade desencadeou-se então com tôda a fúria: as ondas assaltaram a praia em filas compactas, como guerreiros correndo ao assalto, e lançando a cincoenta passos ao ar jactos de espuma; as nuvens negras alagartaram-se como paredes do inferno, deixando entrever a ardente fornalha dos relâmpagos; luzes sulfurosas iluminaram a extensão; o cume do Vesúvio avermelhou-se e um penacho de sombrio vapor, que o vento impelia, ondulou na fronte do vulcão. Os barcos amarrados entrechocaram-se com lúgubre ruído e as cordas muito apertadas gemeram dolorosamente. Daí a nada a chuva começou a cair em enormes bátegas sibilando como flechas,—parecia que o cáos queria reapossar-se da natureza, confundindo-lhe de novo todos os elementos».


Mas, há realmente jettatori? ¿Há alguêm que acredite nisso, no século das maravilhas? ¿Não será a jettatura como o rabinho no remate do espinhaço por onde se conheciam os judeus, segundo aqueles Pedro Lobo e Bartolomeu Lobo, que Camilo tomou à sua conta no Judeu, o romance da vida de António José da Silva? Talvez. O que é certo, porém, é que esta superstição abracadabrante tem muitos crentes. E o Destino, às vezes, quando se quere divertir ou mostrar o seu poder, encarrega os factos de lhes dar razão.

¿Mas não haverá olhares carregados de desconhecidos gérmens morbíficos, de elementos malfazejos, funestos e ameaçadores?

Abro o último número do The Strand Magazine, recentemente chegado a Lisboa. É o número de Agosto. Aí a página 233 a focinhuda e grave revista inglesa relata o estranho caso do presidente do conselho de Itália, Giovanni Giolitti, um dos mais funestos jettatori. O artigo chama-se «The Evil Eye» e é interessante e certo, porque a revista inglêsa não iria turvar a sua gravidade protocolária com uma invencionice de tal responsabilidade. As vítimas de Giolitti são, na sua maioria, os seus próprios colegas do ministério, a quem repentinamente sucede alguma cousa de grave. Foi a insistência dêstes incidentes, sucedendo sempre em pessoas ligadas a Giolitti, que pôs de alarme tôda a Itália e fundamentou o artigo do Strand Magazine. Os ministros Majorama, Marquês Prinetti, Balenzano, De Broglio, Wollamborg, Rosano, Tittoni, Massimini e Gallo foram os que mais sofreram da influência funesta da jettatura Giolitti. Um deles suicidou-se, outro endoideceu, e ainda outro sofreu um insulto apoplético na própria Câmara. Os restantes foram atingidos pelas doenças mais graves e mais exquisitas; um ataque de reumastismo, doenças de coração, apoplexias, etc. O olhar de Giolitti é pois uma verdadeira cornucópia de desgraças, e como se vê não se pode atribuir à imaginação dramatizadora de qualquer banabóia em cata de assunto o artigo em questão. Se o magazine inglês alviçarou ao público o condão fatal do estadista, é porque o caso tinha tôdas as provas de veridicidade.

Giolitti inspira já um verdadeiro terror. O seu olhar fantasmático e fixativo tem a mais terrível lenda que pode ter um homem, especialmente em Itália, o país do mau olhado, por excelência. Quando êle passa, os lazzaroni entre-olham-se aflitos, os transeuntes involuntáriamente fazem-lhe figas e todos fogem dele como dum leproso. As companhias de seguros de vida, baseando-se nos acontecimentos e factos, reputam o seu olhar um grave risco e não efectuam os seus contratos com ministros do gabinete jettatura senão a prémios absurdamente compensadores.

Oh! o mau olhado! o mau olhado!

Na jettatura acredita muita gente boa. As montres, em Nápoles, cercam-se dum preventivo cordão de amuletos protectores, e os espíritos mais fortes não se desdouram de trazê-los na algibeira. Filipe d’Altavila, aquele conde inventado por Gauthier, era civilizado. Fôra educado em Paris, falava inglês e francês; lêra Voltaire; cria nas máquinas a vapor, nos caminhos de ferro, nas duas câmaras, como Stendhal; comia macarroni com garfo; e, como se todos estes argumentos não bastassem, é êle ainda quem confessa que usa «de manhã luvas de Suède; de tarde luvas escuras, à noite luvas côr de palha», prova incontestável de civilização.

Pois êste scéptico, êste civilizado, êste homem forte, conquistador e espadachim—acreditava. ¿Porque não havemos nós de acreditar? Êle, porêm, parece que tinha razão para isso, visto que, sendo um dos melhores esgrimistas, tendo morto em duelo três homens e ferido gravemente cinco ou seis, ninguém se batendo com êle pela fama terrível que tinha, veio a morrer, estúpidamente, cravando-se no punhal do jettatore.