A verdadeira Mercedes não é a que conhecemos das Memórias, sublinhando gaiatamente uma cançoneta, cheia de rapazices adoráveis e publicando cartas de amor para mostrar que nunca amou. A verdadeira está por detrás da máscara desta chorando. Se às vezes lhe vem espreitar aos olhos, quando sucede entristecerem, é sómente pelo geito que teem os comediantes de vir olhar pelos óculos do pano de bôca.

A Mercedes das Memórias é a actriz. Certo é que, aqui e alêm, a caracterização deixa ver a mulher. Mas logo, num geito, ela recompõe a máscara—que tem o público com as suas tristezas!—e aí a temos outra vez a rir maliciosa, com aqueles dois olhos, que são enormes, que são profundos e em que por vezes parece cachoar, revolver e estorcer-se uma labareda criminosa.

Certo estou de que as suas Memórias encontraram em cada leitor um espectador deliciado e ávido; o outro livro encontraria, em cada, um coração. E por isso é que, se tenho pela Mercedes das Memórias sómente uma curiosidade agaçante, tenho pela outra uma devoção profunda, um infinito amor. Com esta deplorável mania de tragediar tudo, até as cousas que não teem tragédia, eu vejo em Mercedes Blasco uma criatura a quem tem pontapizado o orgulho, estrangulado a ambição. Não ha vileza que lhe não tenham assacado, intriga em que a não tenham envolvido. Julgo que tenha chorado muito, mas para dentro, não fôssem as lágrimas deixar-lhe sulcos na pele. Só o martírio, o martírio infinito de recompor a máscara tôdas as manhãs, não vá a gente com o espectáculo da nossa dôr dar prémios gordos de alegria aos safardanas que nos espiam e nos invejam!...

Se cada homem ou cada criatura soubesse fazer um livro, um diário da sua dôr, quando não soubesse fazer dela um poema como queria Goethe, a vida resultaria inaturável. Tôda a gente tem em si a sua tragédia, disse Sienkiewicz. Pois bem. Mercedes, escrevendo o livro da sua tragédia, teria feito o livro mais humanamente intenso, mais doloroso e mais interessante que se poderia escrever. Teria concorrido para se desvendar a vida de aparências que todos somos obrigados a viver. E então, ah, então, veriam os que nos invejam, que as aparências não são mais do que as máscaras de que nos servimos, comediantes, para que ninguêm saiba a mágua que nos consome.

Um seria o livro da cómica. Outro o livro da trágica. O livro de aparências e o livro de realidades. Então ver-se-ia como um completaria o outro. Porque se as Memórias são para o público, o outro seria para seus filhos, «o maior e único amor do seu coração». E seria o maior legado que lhes poderia deixar no dia em que a Morte viesse cerrar-lhe os olhos piedosamente, porque a Morte é o pano de ferro que inevitávelmente correrá sôbre a tragédia e a comédia de nossas vidas.

A Deliciosa Mentira

Tomando uma pitada de simonte, e sacando do bôlso o lençolesco e portuguesíssimo tabaqueiro de Alcobaça, ao ser-lhe perguntado qual era optável, se uma mentira deliciosa, se uma terrivel e forte verdade, o padre engatilhou logo o seu eterno e favorito: Distinguo. Explicou; e, como a mentira deliciosa era o Amor, perguntaram-lhe após o que faria se se visse perseguido por uma mulher bonita. Esteve o tonsurado um momento suspenso e ardilosamente se esquivou, citando, entre outra pitada e uma fungadela, a resposta de S. Tomaz d’Aquino: «o que eu devia fazer, sei: mas o que eu faria, só Deus o sabe».

Isto se passou em tempo de frades, porque tambêm os frades amaram. O amor é vélho como a maldade e forte como aí qualquer teia de aranha. Não resconstituo o sítio. O leitor, compulsando a História de S. Domingos, o fantasiará à sua vontade. É até mais bonito. Não pictorizo a indumentária, nem com enxundiosas côres me permito ressuscitar as figuras. Basta de patranhosa inventiva. Só no recontar da história pus, como o leitor vê, uma discreta referência ao lenço de Alcobaça—reclame úrgico à indústria nacional em crise.

Creio que, depois, a conversa se generalizou. E, como a sabatina ameaçasse eternizar-se, logo um frei noviço propoz, para desempate, que se consultasse os mestres.