O frade, pitadeando gravemente, aduziu razões, carretou argumentos, fulminou sabenças e confundiu os adversários. Santo Agostinho, S. Isto, S. Aquilo, foram chamados a capítulo e até basta cópia de autores gentílicos vieram provar ser o Amor cousa nefanda e temerosa. E, depois de ter aduzido, carretado, fulminado e confundido, o padre resumiu que se guardassem de amar. O amor é o mal e o amar o inferno. Com outra erudita pitada os despediu, e vélhos e novos recolheram às suas celas vencidos, mas não convencidos. Que, não sei se convencido iria tambêm o fradinho cheirador.
Parou a discussão aí por alturas do século passado. Já os controversistas estão feitos em pó—pó caído, diz Vieira—dentro do pó dos seus hábitos. Mas eu, que mais com os mortos vivo do que privo com os vivos, ressuscito o claustro pleno e entro na discussão. Trago tambêm os meus anátemas e argumento com autores modernos. Concordo plenamente com o frade e se venho é porque a turba parece rebelde, e disposta a ceder. Oh! as freiras! O eterno feminino...
Mentira deliciosa, o Amor é a mais mentirosa das mentiras. Anacreonte conta que, uma noite em que se albergaram juntos o Amor e a Morte, ambos armados com suas setas e aljava, de ouro as do Amor, de ferro as da Morte, ao levantar, como ainda fôsse escuro, as aljavas se trocaram.
«Daqui vem que, dali por diante, como o Amor trouxesse as setas da Morte, as suas feridas foram mortais». Considerai pois que as suas feridas são mortais.
¿E vale a pena amar? Não, não vale. O amor não é dêste mundo e isso que vós julgais amor é mera ilusão dos sentidos, fátuo deslumbramento dos olhos, passageiro encanto dos ouvidos. «É quimera, é mentira, é engano, é uma doença da imaginação, e por isso basta para ser tormento», diz Vieira. Eu concluirei que, se o cuidais um paraíso, olhai que tambêm tem um purgatório. E afinal não é sempre senão caminho para o inferno. O amor tem tambêm o seu inferno, e onde há, como no outro, o perpétuo ringir de dentes—stridor dentium—que é, dizem, o ciúme.
Alêm disso, de que vale iludir-vos? «Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas cousas que não se juntam». Mas novo ou vélho, ela linda como estátua ideal ou doce como uma carta de amor, nunca o amor vale o afecto que se ponha nele. É um ruim companheiro, o amor. Tira o tempo, gasta o dinheiro, aumenta os cuidados, muda as intenções, inimiza os amigos, semeia ódios, leva a vinganças, muda, transforma, arrasa e nada nos dá. Ainda se alguma cousa de bom deixa, isso não é mais que uma saudade, o cilício da imaginação.
Mas remédio para tamanho mal, perguntarão? Quatro são conhecidos e êsses os disse, púlpito abaixo, o nosso padre António Vieira: o tempo, a ausência, a ingratidão e, sôbre tudo, o mudar de objecto. «Dizem que um amor com outro se paga, e o mais certo é, que um amor com outro se apaga». O tempo o esvaece. Como um perfume, como uma recordação, como uma flor cara, o tempo o faz desaparecer; como na morte, longe da vista, longe do coração, a ausência faz seu efeito, a ingratidão o faz mudar de objecto, e o mudar de objecto apagar de todo. Um amor com outro amor se apaga, lembrai-vos!
De resto, o amor é um aleijão comum, um mal secreto, de que todos se sentem e poucos se queixam. Para ser feliz, não amar é tudo. A vacina do amor é a indiferença. O amor é um mal de raça. Urge combater êsse mal. Abel Botelho diz que o amor actual ou é «hipocrisia, ou cálculo, ou simonia, ou deboche» e disso não vou longe.
Oh! o amor! Padecem disso as crianças e os poetas. Os outros... os outros são os felizes. Vale pois muito mais ser feliz. Irmãos! Rezai pois um pater-noster pelos inocentes, porque não sabem o que é amor, e outro pelos poetas, porque o são. Pater noster...