É o amor adversário perigoso. Não se lhe deve dar combate. Napoleão, o maior capitão do seu tempo, opina, que no «amor a grande vitória é a retirada». Combatê-lo é uma tontaria. Evitai-o, evitai-o sempre. Quem um dia amou um dia foi vencido.
¿Lembram-se da Notre Dame, de Hugo? ¿Lembram-se de Jehan Frollo, o estudante, no assalto à catedral? O estudante foi ao combate carregado de armas. Por véste uma armadura, por defesa uma bésta, uma espada, punhais, um arsenal. Dir-se-ia invencível, não é verdade?
Subiu a escada, entrou na galeria. Quasímodo mal o viu, ocupado como estava em balancear a escada, apinhada de escalantes. Quando se voltou, dum salto achatou-lhe a armadura contra a parede. Tirou-lhe uma por uma as peças da sua casca de ferro; a espada, os punhais, o capacete, a couraça, os braçais. Depois, com uma só mão, agarrou nele pelos pés e volteou-o no abismo. Do cavaleiro de antes viram as turbas um cadáver, quebrado em dois, o crânio vazio, suspenso de uma saliência da arquitectura da catedral.
O amor é Quasímodo, o sineiro, porque o sineiro fêz como o amor. Despojou primeiro, e só depois é que deu a morte. Primeiro expoliou, depois arremessou ao abismo. É assim sempre. E como amor é Quasímodo, guardai-vos de o procurar, para que não vos suceda o mesmo que a êsse inditoso Jehan Frollo.
O amor é o pior dos males. Que nos deixa êle? «Ridículo, amarguras, ou nada...» responde Octávio Mirbeau. «Que loucura terrível que é o amor! No fundo é sempre triste», continua.
Não amem nunca, ouvem! Sendo o amor um negócio, «quem é generoso é mau comerciante». Nada de ilusões. Nada de amores. Mulheres nunca uma. Uma é perigoso. Se fôram forçados a amar, porque o amor é uma doença como o sarampo ou como a meningite, repartam-se em pequenos quinhões.
Quem teve um só amor na vida foi desgraçado. É ver a história de todos os livros de amor. Quem muitos teve, não amou nada. Quem amou uma foi infeliz, quem amou cento viveu satisfeito. Reza um assento da Tôrre do Tombo, que pelos anos de 1220, o padre Fernando da Costa, presbítero do hábito de S. Pedro, prior da Egreja de Tarouca, pedira perdão a el-rei D. Afonso III por se julgar ter dormido com «sete irmãos, nove comadres, uma tia, nove afilhadas, e com António da Cunha, alêm de cincoenta e uma mulheres, das quais houve cento e noventa e sete filhos, quarenta e sete fêmeas e cento e cincoenta varões».
Mas não reza a história que êste amoroso fôsse desgraçado como o Armando da Dama das Camélias, ou como o Werther se suicidasse.
Por mim, em verdade lhes direi, que me creio o mais imune dos bípedes, porque o mais egoísta me julgo. De resto o amor é para os raros apenas. Deixá-los lá amar. São êsses que fazem depois os belos livros que a gente gosta tanto de ler. Que em verdade, irmãos caríssimos, admito o amor, a deliciosa mentira, mas só em teoria. História remota, cujos heróis já morreram, e que sucedeu nalgum país distante. Porque se é triste e eu entristeço, logo me põe bem com a minha digestão e com a minha consciência,—duas cousas que se parecem—o comentário clássico e absoluto: ¿Quem sabe lá se ela não será mentira?