Outra das grandes pragas nacionais é a das estátuas.

Fervilham as condecorações, a ponto de se confundirem com a placa dos moços de esquina. Não há cidadão que não possua o seu habitozinho, dado quási sempre em recompensa do trabalho que teve para o conseguir. Alguns, os coleccionadores, tem-nos às dezenas, de tôdas as qualidades, de todos os feitios, de tôdas as ordens, desde a ordem da Pontinha de oiro, fundada por João Lourenço da Cunha até... à Ordem Terceira, ou qualquer outra ordem que quiserem.

As estátuas são como as urtigas. Rebentam por tôda a parte e são quási tôdas iguais, para não escangalharem a simetria da sala. Não há em Lisboa jardim que não possua estas três cousas indispensáveis a um passeio que se preza: Um water-closet, um marco fontanário e uma estátua.

Quási tôdas elas teem o ar dum castiçal e há de todos os tamanhos e para todos os paladares. Desde a minúscula do Largo da Biblioteca até à de Belêm, onde Afonso de Albuquerque boceja de tédio ao ouvir dizer à volta de si que Baptista Diniz é o maior dramaturgo português.

Há bem pouco tempo que um silfo bom obstou à perpetração dum dêstes crimes. Erguerem uma estátua ao maior, ao mais glorioso e ao mais desgraçado dos romancistas portugueses, Camilo Castelo Branco, como se êle fôsse aí qualquer burguês enriquecido ou qualquer director geral. Chegou-se a armar uma comissão, que não levou os seus trabalhos avante por se ter levantado grande controvérsia sôbre se Camilo foi ou não escritor célebre que floresceu no século XIX. E até o dr. Libório de Meireles fêz um discurso, verdade seja que plagiado quási todo ao sr. Aires de Gouveia, tendente a provar irrefutávelmente que não foi Camilo o autor dos Lusíadas, ideia assente no espírito do seu colega na comissão, sr. António José da Silva. Como ninguêm se entendesse, porque todos tinham uma ideia muito remota de quem fôra o escritor, de que nenhum deles conhecia escritos, as sessões, que pareciam ou uma tourada de curiosos ou uma sessão da Academia Real das Sciências, não se repetiram e deixaram felizmente em paz o romancista.

O crime não se consumou e foi melhor. As estátuas não nobilitam ninguêm e não servem senão para vertedouro dos cães. O honroso é não ter estátua. E tão difícil é hoje encontrar um homem que não tenha a sua condecoração ou a sua estátuazinha, pelo menos em projecto, que Diógenes, se voltasse a êste mundo à procura dêsse mortal, «apagava a lanterna como cousa inútil» e voltaria pelo mesmo caminho sem o ter encontrado.

Camilo não necessita de estátua. A sua maior glória é não a ter. Os estrangeiros perguntarão por ela como outrora pela de Catão, que não teve estátua no Capitólio.

¿Quere a comissão um conselho? A comissão não sabe quem fôsse Camilo, mas sabe de-certo quem foi o Palma Cavalão. Pois bem. Assembléem outra vez e botem estátua ao Palma Cavalão. Êsse sim. Êsse é que precisa dela e grande crime é ainda não a ter. Pois compreende-se lá que nesta terra de Palmas Cavalões, Palma Cavalão não tenha uma estátua ou ao menos uma rua, uma avenida, um beco, uma travessa com o seu nome!

Palma Cavalão é um símbolo; Palma Cavalão assim chamado para se distinguir dêsse outro benemérito Palma Cavalinho, é uma instituição nacional.