Quem o não conhece?! Palma Cavalão, director da Corneta do Diabo, o que fazia o High-Life na Verdade, ainda não ter estátua! Aqui está uma cousa que não se compreende.
Dir-me-hão que êle não escreveu uma obra, que não escreveu livros. De acôrdo. Mas tinha lógica! «Lisboa está caríssima, e a literatura neste desgraçado país...» Não tinha Livros? Mas esta frase, meninos?! Que filosofia! A filosofia dos Palmas Cavalões!!
Depois, ¿o que é preciso para ter uma estátua? Sim, o que é? Damaso, o nosso distintíssimo sportman Damaso Salcede, só o acusou dêle ter «pedido o relójio ao Zeferino para figurar num baptizado e pô-lo no prego!...», e isso numa hora de indignação. Para estátua bem sei que é pouco, mas lembrem-se de que Palma Cavalão foi tôda a sua vida um tímido, e isto, aqui à puridade, é porque o Zeferino lhe não emprestou tambêm a corrente.
Aqui está uma criatura que, a-pesar de todos os paradoxos, merece monumento na praça pública.
A comissão do monumento a Camilo que olhe para isto, e pense maduramente nesta pretendença. Deixem lá o outro. Palma Cavalão é afinal quem a merece. A comissão que envide todos os seus bons esforços e levante uma estátua ao «malogrado jornalista». Se a comissão não souber quando ele floresceu, consulte Os Maias. Se, ao lê-los, se não sentir tocada e não levantar o castiçal em nome da «pátria reconhecida» então, decididamente, é que isto é um país de idiotas e de refinadíssimos ingratos.
A tristeza profissional
Zamacois, escritor espanhol de muito talento, escreveu, algures, que não conhecia «melancolia mais incurável, abatimento mais profundo, nem declinar mais silenciosamente trágico, que o ocaso dos vélhos actores». Não deveria ter dito assim. A melancolia dos vélhos actores é a tristeza profissional e essa não a teem só os cómicos. Escritores, jornalistas, pintores, todos os que vivem dragando o cérebro e a imaginação, todos êsses sofrem dessa tristeza incurável, a mais horrível, a mais intensa, a mais cruciante de tôdas as tristezas.
A tristeza profissional é uma cousa inexplicável. É o assalto de todos os males do universo à criatura, porque não há lágrimas que ela não chore, agonias que não passe, dúvidas que não tenha. É o inferno, o inferno com todos os círculos da sua medonha expiação.